segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Anticoncepcionais Hormonais: Por que deveríamos ser contra

1. O Silêncio

Existem certos assuntos sobre os quais o silêncio das pessoas é preocupante. Isso não se deve apenas ao contexto de internet em que vivemos – afinal, o Facebook nos tornou incapazes de ler um texto com mais de dois parágrafos, já que tudo é visto às pressas, no intervalo dos nossos afazeres diários –, mas também porque muitas vezes não queremos, ou não é cômodo, que busquemos a verdade.

Entre estes silêncios está o debate sobre anticoncepcionais hormonais. É um silêncio que me entristece, mas que por outro lado também não me assusta. Não me assusta porque eu mesmo já preferi manter o silêncio. Diante da possibilidade da pílula, ou mesmo outras formas de aplicação dos anticoncepcionais hormonais, como adesivo, injeção ou implante, ser realmente abortiva, eu procurava tentar não me informar, com receio de que isso pudesse ser provado como verdadeiro. Foi, realmente, um pecado que cometi, pois a Bíblia afirma claramente que a ignorância proposital será julgada por Deus (Pv 24.12). E é claro que muita coisa corroborou para que eu lavasse as mãos – a começar da definição de aborto dada pelos médicos, que é bastante diferente da que um cristão deveria ter, e que levou-me a não pensar muito se poderia haver aborto com o uso da pílula. No entanto, já tinha lido sobre esse problema de definição, e tinha sido alertado quanto à possibilidade de estar sendo enganado, mas resolvi deixar isso de lado. Evitei a estante de livros, com aquele capítulo sobre contracepção no livro "Deus, Casamento e Família", de Andreas J. Köstenberger e David W. Jones, que havia lido antes. Resolvi não colocar a mão neste assunto tão sério, tomando uma decisão precipitada e sem refletir da forma que deveria. E, assim, pequei.

Não poderia esperar reações diferentes de outras pessoas. Diante de um alerta de que pode não ser exatamente o que todo mundo pensa ou faz, não foram poucas as vezes em que vi cristãos evitando o debate, seja porque já não usam anticoncepcionais hormonais (por questões de saúde), seja porque o homem já fez vasectomia, ou seja até mesmo porque realmente não abrem mão da comodidade que eles proporcionam. "Bom, eu não uso mesmo, então o problema é seu". "Todo mundo faz, não? Não pode ser errado".

Isso é preocupante, e me entristece. Os cristãos que se isentam da discussão porque ela não se aplica à própria vida deveriam saber que parte de sua tarefa como comunidade de discípulos de Cristo está em se importar e buscar ajudar seus irmãos. Embora eu entenda que muitos não vivenciem esse dilema e portanto não tenham uma obrigação tão urgente de compreendê-lo a fundo, isso também não permite que os cristãos se tornem negligentes em um assunto tão sério nos dias de hoje. Imagine um pastor aconselhando um casal de noivos. Você acharia amoroso que esse pastor dissesse: "ah, pesquisem vocês porque isso não me concerne, eu já fiz vasectomia"? Não, não é amoroso e também pode levar a consequências sérias. E se esse mesmo casal, por falta de quem os ajude em relação a isso nos círculos cristãos, se aconselhar com ginecologistas de mentalidade secular e se convencerem de que devem usar até mesmo métodos abortivos? Será que isso, de certa forma, não responsabiliza o pastor, ou pelo menos o silêncio da igreja em geral, acerca do tema? Felizmente, hoje a internet e os livros ajudam muitos casais. Eu e minha esposa chegamos às conclusões que apresento aqui apenas por causa de livros e contato com alguns amigos — estes últimos geralmente sendo católicos. Mas como seria melhor se tivéssemos o apoio dos irmãos nos círculos protestantes! Vários casais hoje estão perdidos com relação ao tema, não encontrando suporte algum dentro de suas igrejas e, à semelhança do que aconteceu comigo e minha esposa, talvez depois descubram que fizeram algo errado por muito tempo e que poderiam ter evitado.

Já quanto aos que não se importam muito e têm a impressão de que isso não pode estar errado, sim, eu entendo que é uma atitude sábia nós não aceitarmos logo de cara algumas ideias incomuns que vemos por aí. A inflexibilidade, às vezes, é boa. Mas tomemos cuidado! Certos assuntos são bastante sérios, e exigem bastante reflexão antes de qualquer decisão, ainda mais quando vemos tão poucos pronunciamentos da parte dos cristãos, e tantos da parte do pensamento secular. Você pode muito bem estar se isentando de pesquisar e buscar entender sobre esse assunto porque realmente não quer correr o risco de ter que mudar. Vivemos em tempos de pragmatismo e comodismo. As pessoas não querem parar para pesquisar sobre anticoncepcionais hormonais porque isso poderia trazer muitos incômodos. E que incômodos, não? Como se todas as pessoas antes de 1960 (data da invenção da pílula) tivessem o maior problema do mundo se não quisessem ter filhos! Ah, como essas pessoas sofriam, não? Parece que hoje realmente ficamos dependentes de certas tecnologias que nos são empurradas, julgando-as indispensáveis para nossas vidas. Mas, por ironia, em seguida estamos todos falando que o cristão deve "tomar sua cruz e seguir a Cristo", e que deve fazer concessões e sacrifícios para fazer o que agrada a Deus. Pois bem, estamos esperando alguém se levantar para dizer o que seja isso.

Bem, eu confesso que não sei se deveria começar este texto de forma séria antes de apresentar meus argumentos contra o anticoncepcional hormonal. Talvez você ache tudo isso um drama pessoal, e com razão, porque ainda não se convenceu do meu ponto de que deveríamos ser contra. Mas peço-lhe um favor. Continue lendo, avalie o que eu digo. Meu objetivo é simples: quero mostrar que o anticoncepcional hormonal não é uma forma de contracepção aceitável por quem respeita a vida como portadora da imagem de Deus. Se isso, porém, não te convencer, então pelo menos perceba que a questão não é simples, e que, diante disso, é melhor não fazer o que pode não ser errado do que fazer o que pode ser errado. E pode ser que você discorde disso também, e venha conversar comigo. Isso é válido. A única coisa que eu creio não deveria ser nossa atitude seria ignorar o debate com um simples “é complicado”, e continuar a vida como se não tivesse visto nada importante.

Também tenho que deixar claro que não acredito estar argumentando contra os anticoncepcionais hormonais como uma forma de legalismo, ou um fardo desnecessário que limita a liberdade cristã conquistada em Cristo. Sei muito bem que quer comamos, quer bebamos, fazemos isso para a glória de Deus (1Co 10.31); mas certamente isso não inclui o “pecar para a glória de Deus”. Ninguém aborta ou se responsabiliza por um aborto “para a glória de Deus”, pois a glória de Deus está no respeito à vida humana, criada à imagem de Deus, e não no contrário disso – o assassinato. Estou argumentando contra os métodos hormonais por um motivo muito claro: a importância de nós, cristãos, vivermos de forma digna do Evangelho, obedecendo à sua vontade que é boa, perfeita e agradável, testemunhando a glória de Deus ao mundo. Isso, no entanto, só é possível quando renovarmos a nossa mente e não nos amoldarmos a este século – uma tarefa que exige trabalho de reflexão, sensibilidade cultural, e principalmente uma atitude de oração e um coração aberto para o agir transformador do Espírito Santo. Simplesmente dizer que a Bíblia não proíbe o uso não é um argumento válido – afinal, ela também não o permite.

Ainda antes de começar, gostaria de recomendar o livro de Randy Alcorn sobre o assunto: "Does the Birth Control Pill Cause Abortions?", disponível gratuitamente em https://store.epm.org/product/does-the-birth-control-pill-cause-abortions. Um excelente texto que resume o livro já foi traduzido e publicado no blog da Fernanda Ferreira (http://fernandaferreira.art.br/2014/01/sera-que-a-pilula-anticoncepcional-causa-abortos-um-resumo/). Talvez Randy Alcorn tenha explicado melhor do que eu, e confesso que é uma mistura de (boa) frustração e alegria quando vemos que outros autores também já se aventuraram a expor o que vamos falar aqui (além de Alcorn, Mark Liederbach também apresenta uma breve discussão sobre o tema em “Deus, Casamento e Família”, por Andreas J. Köstenberger e David W. Jones). Isso me deixa mais calmo, pois retira um pouco da urgência de expor o que pretendo escrever, e me consola por saber que não sou uma voz que clama no deserto. Também é por isso que alguns detalhes específicos, e principalmente os dados, eu deixo para que o leitor confira no livro/artigo de Alcorn. Resolvi escrever sobre este assunto com uma abordagem um pouco diferente: enquanto Alcorn faz uma pesquisa mais meticulosa sobre os dados da medicina, meu texto tenta lidar com algumas bases mais filosóficas e mesmo pastorais sobre o tema.

2. Os Fatos

Embora não seja o meu foco apresentar detalhadamente todos os dados médicos, preciso apresentar o básico; afinal, muitos casais sequer sabem da forma como os anticoncepcionais hormonais agem. Os leitores que quiserem verificar melhor esses dados podem ler as bulas dos medicamentos, que de fato apresentam o que vou afirmar a seguir, ou mesmo consultar o livro ou artigo de Randy Alcorn citados anteriormente.

Fato 1: Anticoncepcionais hormonais funcionam alterando o metabolismo feminino de forma a impedir a gravidez, funcionando de três formas, em ordem decrescente de probabilidade: 1) inibindo a ovulação (i.e., reduzindo a probabilidade de que um óvulo seja liberado); 2) tornando mais espesso o muco da cérvix e assim dificultando a chegada dos espermatozoides ao útero; e 3) alterando o revestimento do útero de forma a não permitir a fixação de um óvulo fertilizado. Ou seja, se a primeira forma falhar, ainda se tem a segunda e a terceira; se a segunda também falhar, ainda se tem a terceira; se os três mecanismos falharem, a gravidez acontece.

É importante esclarecer: por "anticoncepcional hormonal" me refiro aos métodos contraceptivos que promovem alterações hormonais no corpo feminino, seja através de pílulas, implantes, injeções ou adesivos cutâneos, de forma a prevenir a gravidez. A prevenção é feita de três formas. Citando o Physician's Desk Reference, lemos:

"A supressão da ovulação é o modo principal pelo qual os contraceptivos orais, Depo-Provera e Lunelle evitam a gravidez; o sistema de implante causa a supressão da ovulação em cerca de 50 por cento dos casos. Ao longo de cada ciclo da pílula, porém, e de modo contínuo nos implantes Norplant e no Depo-Provera, o muco que reveste o cérvix, local onde o sêmen entra no útero, permanece espesso e pegajoso de modo a dificultar a passagem do sêmen por ele. Esse empecilho viscoso também atua sobre a célula do espermatozóide. Evita a fertilização ao interferir com as alterações químicas dentro do espermatozóide que lhe permitem penetrar o revestimento externo do óvulo.

Ainda que a ovulação e fertilização ocorram, os métodos hormonais oferecem outra medida de proteção: alterações no revestimento do útero. Normalmente, o estrogênio inicia o espessamento do revestimento uterino na primeira parte do ciclo, enquanto a progesterona entra em cena posteriormente para ajudar o revestimento a amadurecer. Uma vez que os dois hormônios estão presentes ao longo de todo o ciclo da pílula e a progesterona é fornecida continuamente pelos implantes e a injeção, as variações hormonais normais são mascaradas e raramente o revestimento tem a oportunidade de se desenvolver o suficiente para nutrir um óvulo fertilizado." (citado em Köstenberger, "Deus, Casamento e Família", p. 135).

É com a terceira forma de prevenção de gravidez que o problema do aborto surge, pois neste mecanismo pode haver a eliminação de um óvulo fecundado ou zigoto – o qual, conforme argumentarei a seguir, é um ser humano.

Fato 2: A definição de aborto utilizada pelos médicos é vaga, e geralmente considera que aborto é apenas uma intervenção “física” no desenvolvimento de um organismo que já esteja fixado à parede uterina.

Eu não sei qual foi a necessidade que a comunidade médica teve para estabelecer uma definição de aborto que é completamente contrária ao senso comum. Sei, obviamente, que foi uma necessidade técnica e pragmática, como acontece quase sempre hoje. Posso contar que eu e minha esposa, ao perguntarmos a uma ginecologista se determinada pílula anticoncepcional era abortiva, ouvimos um redondo "não, podem ficar tranquilos que não é". Alguns meses depois, no entanto, tomamos conhecimento das informações que apresentei no Fato 1, além de lermos a bula do medicamento que minha esposa tomava e verificarmos exatamente isso. Ficamos pasmos. Foi então que consultamos novamente o livro de Andreas Köstenberger e David W. Jones, "Deus, Casamento e Família", e lemos o alerta de Mark Liederbach (que escreve a seção sobre métodos contraceptivos):

"... devido ao uso um tanto enigmático da terminologia referente a esse assunto, os casais prudentes, que buscam o conselho do clínico geral e/ou ginecologista, devem formular suas perguntas com exatidão e cuidado. Um jovem casal talvez pergunte ao seu médico, por exemplo, se determinada forma de contracepção oral ou química apresenta o risco de causar aborto. A resposta pode variar, dependendo de como o médico define 'aborto' ou 'gravidez'" ("Deus, Casamento e Família", p. 136).

Decepcionados com a ginecologista, então, eu e minha esposa apresentamos isso na próxima consulta com ela. Dissemos que não achamos que seja tão simples concluir que a eliminação de um óvulo fecundado não seja aborto. Por que entender aborto como aquilo que se daria somente depois que um zigoto fosse preso à parede uterina? O cinismo não podia ser maior: "é, é verdade, vocês têm razão. Mas me digam, qual outro método vocês pensam em usar então? Esse aqui? Ou esse outro? Bla bla bla...". Pois bem, o cliente tem sempre razão.

Repare que esses dois primeiros fatos exigem um mínimo de coerência da parte das pessoas. Algumas vezes, na cultura popular, as pessoas condenam o uso de DIU e "pílula do dia seguinte" dizendo que são abortivos. No entanto, diante desses fatos, ou você considera tanto os anticoncepcionais hormonais quanto o DIU e a "pílula do dia seguinte" como abortivos, ou não considera nenhum deles. A única diferença entre eles é que no caso de um anticoncepcional hormonal a eliminação de um óvulo fecundado pode acontecer, ao passo que nos outros dois métodos a eliminação já é feita intencionalmente. No entanto, creio que que a responsabilidade pelo mal causado, independentemente do método, é da pessoa que o usa (confira a Reclamação 3 a seguir).

Fato 3: Anticoncepcionais hormonais oferecem riscos à saúde.

Este fato não diz nada acerca do problema do aborto, mas também pode influenciar a decisão de alguns casais. Frequentemente nós vemos por aí alguns textos falando dos riscos que os anticoncepcionais apresentam à saúde. Alguns são realmente mal escritos e pecam por uma questão muito básica: eles observam os prejuízos à saúde que apenas alguns medicamentos provocam, e logo generalizam para todos, dizendo que "os anticoncepcionais causam isso ou aquilo". Recentemente uma amiga que cursa medicina me alertou em relação ao fato de que hoje em dia muitos dos efeitos colaterais de anticoncepcionais não mais existem, seja por mudanças na dosagem ou mesmo nas formas como eles agem no corpo. Mas as possibilidades de efeitos colaterais sempre existem, como em vários medicamentos que tomamos. Você não precisa ser um especialista para saber disso: basta ler a bula do remédio. Você lê a bula? Pois bem, faça o favor de ler.

Penso também que mesmo se não houvesse nenhum risco previsto na bula, ou mesmo que um dia a medicina pudesse nos dizer que certos medicamentos não fazem nenhum mal à saúde... who knows? Você pode dizer com certeza absoluta que sabe tudo o que o medicamento está fazendo no seu corpo? Tenho certeza de que não. A medicina não pode te garantir nada, e por isso, cuidado com o que você toma!  Meu conselho sempre será: evite tomar medicamentos, principalmente os medicamentos fortes. Avalie o quanto de sua saúde você está disposto a colocar em risco em troca de um benefício imediato. E lembre-se: no caso de um anticoncepcional, será uma substância ingerida por vários anos de sua vida, provavelmente todos os dias. É muito diferente de tomar um comprimidinho de vez em quando, quando você fica gripado.

3. Premissas e Conclusões

Eu sei que, diante do que foi apresentado até agora, não é de todo óbvio concluir que "eliminar óvulos fecundados" é o mesmo que "matar seres humanos". Embora, como disse, na cultura popular muitas pessoas já considerem isso verdadeiro (tornando incoerente, portanto, seu posicionamento contra-DIU e a favor do anticoncepcional hormonal), talvez diante dos fatos elas se disponham a "repensar o senso comum", argumentando que óvulos fecundados não são pessoas e garantindo, assim, o seu conforto.

Mas para lidar com esse argumento de forma satisfatória eu precisaria fazer uma digressão bem extensa, a qual julguei que atrapalharia o fluxo do texto. Por isso, resolvi deixar isso em um apêndice no final. Fique à vontade para ler agora ou depois. O que farei nesta seção será apenas apresentar as premissas que estou utilizando para chegar a certas conclusões, que são o cerne do meu texto.

Premissa 1: Um óvulo fecundado não é parte do corpo da mulher ou do homem - é um novo organismo.


Premissa 2: Um óvulo fecundado não preso à parede do útero não é menos humano do que um óvulo fecundado preso à parede do útero, e, portanto, também não é diferente de um feto.


Premissa 3: Um óvulo fecundado ou um feto é um ser humano no sentido de que se pode aplicar a ele o princípio bíblico de "não matarás".


Se os fatos e as premissas acima são verdadeiros, então temos as seguintes conclusões:

Conclusão 1: O anticoncepcional hormonal pode provocar a morte de seres humanos.

Não precisamos de muitos dados médicos para concluir o que os anticoncepcionais hormonais realmente fazem: eles agem no metabolismo feminino, tornando o corpo inapto a uma gravidez. Mas o corpo pode tornar-se inapto a uma gravidez de várias formas – no caso, três: através do impedimento da ovulação, da dificuldade do espermatozoide para chegar ao útero, ou da própria incapacidade do óvulo fecundado se prender à parede do útero. Isso mostra que não podemos confundir o fim (não gravidez) com o meio (alteração hormonal). A não ovulação é apenas um dos efeitos possíveis da alteração hormonal, e não o único decorrente dela.

Por isso, precisamos lembrar que só faremos uma análise ética responsável de uma tecnologia uma vez que entendamos o que realmente está sendo feito para se atingir um resultado. O contrário disso é pragmatismo – é como dizer que o governo de Hitler foi desejável pois reconstruiu a Alemanha pós-primeira guerra. A pessoa que toma o anticoncepcional hormonal não está simplesmente parando sua ovulação; e sim, alterando o seu metabolismo, sendo plenamente responsável por tudo o que decorre disso.

Se, então, os dados mostram que, ao alterar o metabolismo feminino, a parede uterina pode tornar-se incapaz de abrigar um óvulo fertilizado que, segundo as premissas acima é um ser humano, criado à imagem de Deus e cuja vida deve ser respeitada, então o anticoncepcional hormonal desrespeita a vida humana e pode provocar a morte de um ser humano.

Conclusão 2: A pessoa que utiliza o anticoncepcional hormonal, se consciente dos fatos acima, ou inconsciente de forma voluntária, é responsável pela morte que pode acontecer.

Sim, eu sei que muitas pessoas sequer sabem dos fatos apresentados acima, ou sequer pararam para pensar na possibilidade de que o anticoncepcional hormonal pode ser abortivo. Não creio que tais pessoas sejam culpadas pelas mortes. Afinal, se perguntaram para seus médicos se a pílula era abortiva, provavelmente ouviram um redondo "não" como resposta. Assim, a responsabilidade por essas mortes recai nos médicos — e não só a responsabilidade, mas também a ira de Deus por terem também mentido a seus pacientes, obscurecendo coisas muito óbvias com definições técnicas, distantes da realidade. Tais médicos têm que aprender a respeitar a opinião de alguém que considera um óvulo fecundado como um ser humano, e não omitir os detalhes, sob a pretensão de ser um especialista capaz de definir e impor às “massas ignorantes” o que é ele acha que seja a vida humana.

Mas não estou escrevendo só para acusar médicos ou informar quem não sabe. As pessoas que realmente me preocupam são as que não se importam com isso ou que, mesmo sabendo que a questão é complicada, pouco querem refletir sobre o assunto, lavam as mãos e optam pela solução mais cômoda, dizendo "ah, isso aí é bobagem, todo mundo usa, os médicos sabem do que falam". Por isso eu deixei claro que uma pessoa é responsável “se inconsciente de forma voluntária". Ou seja, a pessoa pode saber, ou pode não querer saber, ao entregar tudo para a responsabilidade do especialista, e não querer sair de sua zona de conforto.

3. Objeções ou Reclamações

Nesta seção vou responder algumas possíveis objeções ou reclamações ao que concluí acima. Falo de “reclamações” pois, apesar de ter tentado apresentar os argumentos de forma objetiva, também conheço muita gente que, assim como eu agi, simplesmente não quer ou não se sente confortável em mudar. Não acho que isso seja necessariamente “burro” ou irracional. Afinal, tomar uma decisão nesta área não é fácil, principalmente quando o que eu digo parece tão estranho e contra o senso comum, além de já ser raro de se ouvir. Eu mesmo tive que refletir se havia algo no meu coração que não me dispunha a aceitar certos fatos e talvez até aprender a ver que eles não eram tão horríveis quanto pareciam; ou seja, tive que me acostumar com algumas ideias e aprender a ver como elas se encaixam no restante da vida. Portanto, nesta seção, além de tentar responder algumas objeções mais lógicas, também pretendo lidar com objeções do coração, que chamei de “reclamações”, embora não necessariamente com um sentido ruim.

Reclamação 1: Eu não estou certo de que eliminar um óvulo fecundado seja o mesmo que matar um ser humano. É complicado. Vou continuar usando.

Ah, “é complicado”, né. Já citei esse tipo de atitude várias vezes no texto, mas é bom deixar isso claro de novo. Acredito que esse tipo de reclamação contraria um princípio ético muito básico com relação à incerteza. Seja sincero consigo mesmo: é melhor não fazer o que pode não ser errado, do que fazer o que pode ser errado. A não ser que você esteja plenamente certo de que pode eliminar óvulos fecundados sem pecar, ou de que o determinado anticoncepcional que você ou sua esposa usa nunca causa essa eliminação, você deve ser cuidadoso em suas decisões. Simplesmente dizer “é complicado” e continuar usando talvez revele sua falta de disposição para mudar por causa de uma comodidade. Sinceramente, eu não entendo como a comodidade de uma pílula pode ser mais importante do que a possibilidade de desrespeito à vida humana.

Reclamação 2: A ciência não é precisa, e muda com o tempo; por isso eu não me apoiaria nesses fatos apresentados sobre as anticoncepcionais hormonais.

Sim, a ciência não é precisa. Já comentei no Fato 3 que, como todos os medicamentos, sempre existe risco de algum prejuízo à saúde não previsto. Isso fica ainda mais óbvio diante da indústria farmacêutica, que chega até mesmo a criar doenças para vender mais. O fato é que a medicina e a farmacologia não são ciências tão exatas como esperamos, e não entendem o corpo humano de forma extensiva. Séculos de epistemologia não conseguiram provar que as ciências exatas são totalmente verificáveis – e nem acredito que vão fazer isso um dia, embora sempre predomine hoje a idolatria científica que crê que tudo o que “a Ciência diz” seja verdadeiro. Teorias são sempre revistas, corrigidas, ampliadas, ou até mesmo abandonadas. Novas evidências exigem novas explicações, pois o mundo é muito mais imprevisível do que nossos modelos teóricos.

Então diante desse fato alguém poderia dizer: "OK, portanto se a ciência não é precisa, deveríamos abrir mão de todos esses dados sobre o funcionamento dos anticoncepcionais e olhar só para os resultados, porque, quem sabe, a eliminação de óvulos fecundados sequer esteja acontecendo". Errado! O erro com esse tipo de raciocínio está no tratamento que ele dá ao "quem sabe?". Mais uma vez: se você não sabe se ao fazer algo está causando algum mal, não faça! Ademais, uma coisa é verdadeira: Deus nos faz responsáveis por aquilo que conhecemos, mesmo que esse conhecimento um dia se revele falso. Se um sequestrador está certo de que não vai matar sua vítima, mas diz para você que vai matá-la se você não depositar o dinheiro na conta dele, a sua obrigação é agir conforme o que você sabe e depositar o dinheiro. Você não sabe o que ele é capaz de fazer. Você não está em um jogo no qual você pode supor que os fatos estão blefando contra você, permitindo assim que você aja irresponsavelmente – principalmente se a questão envolve a vida do seu próximo.

Reclamação 3: A probabilidade de aborto é muito baixa. Deus não vai permitir que isso aconteça.

Se um avião tem probabilidade de 25% de ter pane e cair, você deixaria ele voar, confiando que Deus não vai permitir que isso aconteça? Randy Alcorn também ilustra: "crianças que brincam na estrada, sobem no telhado, ou são deixadas sozinhas nadando em piscinas não morrem sempre, mas isso não prova que tais práticas sejam seguras ou que nunca resultem em fatalidades. Nós veríamos imediatamente a inconsistência em alguém que argumentasse a favor de deixar crianças sozinhas na piscina porque conhece casos em que isso foi feito sem nenhum dano às crianças”. Nós não somos responsáveis só pelo que é certo, mas também pelo que é incerto.

Reclamação 4: Mas eu já ouvi falar que a mulher pode naturalmente eliminar óvulos fecundados, sem qualquer uso de hormônios.

Vamos reduzir isso ao absurdo usando analogias. Você dirigiria bêbado só porque acidentes acontecem, estando as pessoas bêbadas ou não? Estaria você autorizado a assassinar alguém só porque pessoas morrem naturalmente? Reflita nisso. Sim, eu sei que a mulher pode naturalmente eliminar óvulos fecundados, e às vezes até elimina fetos. São resultados da maldição decorrente da Queda. Mas há uma grande diferença entre fazer algo voluntariamente ou involuntariamente. A pessoa que decide é, obviamente, responsável.

Reclamação 5: Mas meu/minha ginecologista me receitou por outras questões de saúde.

Bem, se você é solteira e não realiza atos sexuais, obviamente você não provocará a morte de ninguém. Mas fique em alerta. Eu não sou médico, mas desconfio bastante desses tipos de tratamento que, no fim das contas, parecem tentar unir o útil ao agradável — no caso, o tratamento de alguma doença com a facilidade da contracepção. Se você não concorda com essa forma de contracepção, talvez fosse interessante procurar uma forma mais simples, e talvez até mais saudável, do que medicamentos como esses. Não me parece saudável, por exemplo, tentar tratar uma anemia “segurando” o ciclo menstrual com pílulas hormonais (algo que é bastante comum de vermos por aí). Soa como uma gambiarra médica. Mas como disse, não sou médico, e se você for solteira e realmente precisar de um tratamento desse, vá em frente.

Reclamação 6: Mas Deus criou o sexo não só para a procriação, e sim também para o prazer e comunhão do casal.

Não importa o que você pensa sobre sexo — quer você acha que deve, quer você acha que não deve dividir a procriação do prazer sexual, o uso de anticoncepcionais que promovem a morte de seres humanos não é aceitável! E supondo que todas as alternativas de contracepção existentes envolvessem o aborto, o casal deveria estar disposto a sacrificar qualquer possibilidade de planejamento para respeitar a vida humana.

Eu não acho que toda forma de planejamento de filhos seja errada, mas noto que este é um assunto com o qual às vezes falta um bom envolvimento dos evangélicos, e eu mesmo gostaria de ver argumentações mais profundas sobre o tema. Posições que negam o uso de controle de natalidade vão se basear na ideia de que um casal tem que confiar em Deus, enquanto que posições que o permitem se baseiam no fato de que Deus nos dá responsabilidade. Eu vejo mais sentido em argumentar pela segunda linha, mas ainda espero algum texto lidando com isso em mais detalhes.

Duas coisas porém, precisam ser notadas para o nosso presente propósito. A primeira é que é verdade que Deus criou o sexo não só para a procriação, mas de fato ele criou para a procriação e viu que isso era muito bom. Se você não enxerga filhos como bênçãos e, pelo contrário, os associa a problemas, você está sendo ingrato e pecando contra Deus. Vivemos em tempos de uma mentalidade contraceptiva, que certamente decorre de comodismo e falta de confiança em Deus para prover os recursos necessários (Mary Pride, por exemplo, faz uma excelente análise no capítulo “Who Is Afraid of the Big Bad Baby”, em seu livro “The Way Home”). Hoje em dia são raros os casais que entendem que o casamento envolve também um chamado para a procriação e educação de filhos, e que muitas vezes faz parte do plano de Deus nos surpreender com uma gravidez inesperada, frustrando os nossos planos como os de dedicar nossas vidas ao prestígio, dinheiro, ação social, ministérios cristãos, ou quaisquer outras coisas que não a criação de filhos para a sua glória.

Hoje em dia muitos casais topam qualquer coisa para evitar filhos. Se trocar um método por outro sobe a probabilidade de contracepção de 99,8% para 99,9%, ele certamente é trocado, não importando o preço a se pagar por isso. Afinal, essa é a mentalidade tecnicista: queremos ter pleno controle sobre as nossas vidas. O que acontece, no fim, é que a sociedade acaba sendo totalmente configurada para desencorajar a criação de filhos. Você provavelmente conhece histórias de empresas que demitiram funcionários que tiveram filhos, ou já percebeu que, no mercado de trabalho de hoje, sempre é mais valorizado o jovem yuppie que não tem compromisso com nada senão com a empresa – sem família, e que sempre topa ganhar umas horas extras ou marcar uma viagem para outro país no dia seguinte, onde vai passar três meses trabalhando doze horas por dia e curtindo baladas nas horas vagas. Enfim, é diante disso que muitas pessoas chegam até mesmo a se convencer de que ter filhos é algo totalmente fora de cogitação. São várias as pessoas que conheço que, diante das imposições modernas, e da sua não disposição de tomarem a cruz e sacrificarem-se a si mesmas em prol das finalidades maiores do Reino, se convencem plenamente de que não há outra alternativa possível. "Não, você não pode ter tantos filhos assim! Como você vai sustentar tanta gente?". "Não, você tem que arrumar um emprego em São Paulo, não tem escolha". "Não, você tem que assistir uma televisãozinha à noite pra dar uma relaxada". Sempre me pergunto: "como assim, eu tenho?".

A segunda coisa a ser notada é que ao contrário do que alguns evangélicos parecem crer, a prática de abstinência temporária e o exercício do autocontrole no sexo não é pecaminosa. Alguns vão a 1Coríntios 7.5, que diz "não vos priveis um ao outro, salvo talvez por mútuo consentimento, por algum tempo, para vos dedicardes à oração e, novamente, vos ajuntardes, para que Satanás não vos tente por causa da incontinência". Sim, segundo o texto, é verdade que o sexo é uma forma de serviço, e o marido ou a esposa que o negam estão desobedecendo a Deus. Mas Paulo abre exceções – no caso, a oração. E vamos concordar que os casais tem negado o sexo por qualquer motivo hoje – sono, cansaço, afazeres, programas de TV, e até mesmo por brigas e ressentimento. Oração, porém, seria um dos últimos motivos para isso.

Temos que tomar cuidado para não concluir mais do que o texto diz. Ele apenas diz: “maridos e esposas, sirvam uns aos outros através do sexo, e cuidado com a abstinência sexual, para que vocês não sejam tentados”. Mas ele não diz: “sexo é um requisito insubstituível para um bom relacionamento entre marido e mulher e o único remédio contra a lascívia”, e muito menos “os casais devem fazer sexo sempre que tiverem desejo”.

Mas, de fato, os métodos de abstinência temporária não são a única alternativa ao métodos hormonais – há também a classe métodos de barreira (preservativos, diafragma, espermicidas e coito interrompido). Na visão de alguns católicos, os métodos são inaceitáveis devido a uma interpretação da história de Onã, que foi morto por Deus por derramar o sêmen no chão em suas relações com Tamar. Creio que a interpretação vai muito além da mensagem do texto, e Mark Liederbach, comentando sobre isso em “Deus, Casamento e Família”, diz: "Ao examinarmos melhor a passagem, porém, temos a impressão de que o desprazer do Senhor em Gênesis 38.10 não deve ser associado diretamente à prevenção da gravidez, mas sim, ao modo particularmente explorador, abusivo e desperdiçador como Onã se relacionava sexualmente com Tamar" (p. 131).

Isso leva à minha posição (até o presente): não acho que a Bíblia proíbe métodos de barreira. Mas cuidado: se isso estiver te levando a idolatrar o sexo, e tratar seu cônjuge como um objeto de prazer e não uma pessoa, pare! Eu ainda pretendo escrever um texto lidando com alguns aspectos da contracepção em mais detalhes, mas por ora creio ser importante mostrar que a alternativa da abstinência – como tabela e método Billings – não é pecaminosa. Acho importante argumentar contra uma certa mentalidade de “sexo picante” que tem transformados os casais em verdadeiros idólatras sexuais. Em muitos casos penso que uma abstinência temporária seja melhor para a vida do casal do que os precedentes que certos métodos abrem para excessos e descontrole do corpo. Consentir com o cônjuge a parar o sexo por um tempo determinado para se dedicar a oração pode ser uma forma de glorificar a Deus, além de permitir planejar o momento dos filhos.

Reclamação 7: Mas o que fazemos então com todos esses problemas de gente que tem filhos e não tem condições para criar? Vamos negar um anticoncepcional a essa pessoa?

Ou, como já ouvi alguém me dizer: "os benefícios do anticoncepcional são bem maiores que os riscos de uma gestação não planejada". Ora, esse argumento é o mesmo usado no discurso pró-aborto! O maior problema com ele é que ele enxerga o aborto como uma questão social (de "saúde pública"), antes do que uma questão moral. Não! O cristão não pode concordar com isso. Existem, sim, valores morais universais, prescritos por Deus, e que transcendem qualquer estrutura e valores sociais. Importa que o homem antes obedeça à lei imutável de Deus, do que procure encontrar, por si mesmo, formas de "fazer a sociedade funcionar" ou garantir o “bem-estar social” de acordo com o que ele entende.

Infelizmente, argumentos assim são muito comuns na nossa era tecnicista, ávida por autonomia em relação às prescrições divinas, e que acha que sabe como "resolver as coisas". Repare no apelo emocional: "é para o bem das mulheres, para o bem das famílias, para o bem da sociedade". Mas a Bíblia diz: "ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!" (Is 5.20). Só não é para o bem dos seres humanos que estão sendo mortos, não?

Conclusão: o que fazer?

Não sei se este texto foi capaz de te convencer. Se não, estou aberto a ouvi-lo; mas se sim, ou se pelo menos o deixou com mais dúvidas, meu primeiro conselho é: ore e medite sobre isso. Um dos motivos pelos quais escrevi este texto foi para compartilhar muitas dúvidas e reflexões que eu e minha esposa tivemos até percebermos a necessidade de pararmos de usar o anticoncepcional hormonal. Não foi fácil para nós, porque ainda não tínhamos muitas das respostas que apresentei aqui (tanto às objeções lógicas como às reclamações do coração); portanto, espero que isso facilite sua decisão. Mas meu tratamento ainda está longe de ser abrangente, e pode não ter muito a ver com o seu caso. Por isso, ore e medite, reconhecendo também que qualquer conclusão não vem por mero esforço intelectual, mas por graça de Deus, colocando em nós o amor pela virtude e o desejo de agradá-lo em tudo o que fizermos, apesar das circunstâncias. Confie na sua graça!

Mas outro conselho que dou é: não adie sua decisão. Lembre-se do que falei no início: é melhor não fazer o que pode não ser errado, do que fazer o que pode ser errado. Como já disse, pode ser que tudo o que disse aqui se revele como falso, dadas algumas descobertas científicas (do que eu duvido). Eu e minha esposa, assim que começamos a ter dúvidas, paramos com o anticoncepcional hormonal; e até poderia ser que descobríssemos depois que tudo o que vimos fosse mentira (mas não descobrimos; pelo contrário, só tivemos mais certeza). Mas qual seria o problema se fosse mentira? Temos que agir com base no que sabemos, deixando de pragmatismo e comodismo e nos dispondo a tomar a cruz quando necessário. Eu não sei quanto a você, mas na minha opinião, a questão da morte de um ser humano é muito mais importante do que qualquer justificativa apelando para a saúde da mulher, a bênção do ato conjugal ou mesmo a possibilidade de “estragar” sua noite de núpcias (por alguma necessidade de abstinência). Reconheça os valores que estão em jogo aqui.

E sinceramente, posso estar exagerando ao dizer que não usar um anticoncepcional hormonal é "tomar uma cruz". Existem métodos anticoncepcionais naturais que são extremamente simples. Não pretendo apresentá-los aqui, mas o leitor interessado pode procurar e se informar melhor. Apenas comento que eu e minha esposa utilizamos o Método Billings, devido à sua simplicidade, eficiência, respeito para com o corpo feminino e incentivo à comunicação e união do casal. Os católicos promovem bastante esse método e (gratuitamente) orientam muito bem os casais interessados acerca da sua utilização, seja para noivos que estão se preparando para casar, seja para mulheres que estão abandonando a pílula (que precisam de um cuidado especial, para "desintoxicar" o corpo). Randy Alcorn oferece na página de seu livro alguns links sobre métodos naturais - http://www.epm.org/resources/2010/Mar/22/links-natural-family-planning/, mas o leitor também pode facilmente encontrar material em português e pessoas que entendem do assunto. E caso você se interesse pelo Billings, apenas mais um conselho: procure alguém que forneça um acompanhamento e aconselhe o casal quanto ao método. Eu e minha esposa também estamos à disposição para ajudá-lo, apesar de um contato pessoal ser mais desejável.

Espero ter quebrado o silêncio e contribuído com a discussão de alguma forma.

Soli Deo Gloria!


Apêndice: Por que a Eliminação de um Óvulo Fecundado equivale ao Assassinato de um Ser Humano

Utilizei, na seção 2, uma série de premissas para chegar às conclusões apresentadas. Neste apêndice pretendo justificá-las.

Premissa 1: Um óvulo fecundado não é parte do corpo da mulher ou do homem - é um novo organismo.

Até onde sei, a própria ciência afirma que a união de um espermatozoide com um óvulo envolve uma “mistura” de material genético de dois organismos diferentes, gerando um novo organismo. Isso significa que, se matamos um zigoto, não matamos apenas uma célula do corpo de alguém, e sim, um novo organismo.

Isso deveria ser um argumento simples para combater o tipo de justificativa pró-aborto que diz que "é parte do meu corpo e eu faço o que eu quiser". No entanto, as pessoas que usam essa justificativa também dizem que não se pode basear uma diferenciação entre organismos com base em material genético, pois plantas que geram mudas, por exemplo, não podem ser consideradas o mesmo organismo, apesar de terem o mesmo material genético. A diferença então estaria no "nível de independência" entre dois organismos e, portanto, como um zigoto depende inteiramente do corpo feminino para sobreviver, pode ser considerado como parte dele.

Tal justificativa é inválida por dois motivos: 1) seres humanos simplesmente não são plantas! e 2) a forma como "dependência" ou "independência" são definidas aí é completamente arbitrária. Um óvulo fecundado depende do corpo feminino para se desenvolver, mas uma criança também depende de sua mãe, um leão depende de uma zebra para se alimentar, e uma flor depende de uma abelha para ser polinizada; e (a não ser que você seja um monista!) nenhuma dessas "dependências" nos permitem concluir que estamos lidando com o mesmo organismo ou ser.

Creio que a questão ficaria simples se saíssemos dessas definições científicas e pensássemos na própria razão de ser de um óvulo fecundado ou zigoto. Um óvulo fecundado já não seria a primeira célula de um novo organismo? Logo, ela faz parte de um novo organismo. Sua razão de ser é simplesmente desenvolver-se, e não tornar-se outra coisa; logo, um óvulo fecundado já é um novo organismo.

É bom deixar este ponto bem claro para que você fique com apenas duas alternativas: um óvulo fecundado ou é um ser humano, no sentido de que você é proibido de matar segundo a lei moral, ou ele é algum outro organismo diferente de um ser humano, de forma que a lei não se aplica. Mas você não tem base para dizer que ele é parte do corpo de alguém.

Premissa 2: Um óvulo fecundado não preso à parede do útero não é menos humano do que um óvulo fecundado preso à parede do útero, e, portanto, também não é diferente de um feto.

Eu não entendo porque os médicos normalmente definem aborto somente como a retirada de um feto do corpo feminino, e não também a eliminação da primeira célula de um novo organismo que ainda não se prendeu à parede do útero. A razão talvez seja meramente instrumental e relacionada a motivos da saúde, ou até mesmo por causa do efeito emocional presente quando vemos a destruição do corpo de algo que já parece um ser humano (que não existe no caso de uma simples célula). Mas não creio que deveríamos nos basear nessas razões instrumentais, e muito menos em impressões subjetivas, para definir o que é uma vida. Um ser humano não é “mais humano” só porque se fixou na parede do útero e começou a se desenvolver.

Alguém até poderia objetar dizendo que “é um ser humano à medida que começa o seu processo de desenvolvimento”, mas esta definição, além de não ser nem um pouco intuitiva, também é arbitrária. Pode-se considerar a própria fixação do óvulo fecundado como uma fase do desenvolvimento. E usar de qualquer meio para interromper essa fase de desenvolvimento é também um desrespeito à vida.

Portanto, eu não creio que exista nenhum princípio claro para diferenciar um óvulo fecundado, um óvulo fecundado preso à parede do útero e um feto. Os três são organismos pertencentes à espécie humana em diferentes estágios de desenvolvimento. Eliminar óvulos fecundados é o mesmo que abortar.

Isso já deveria ser suficiente para quem se declara contra o aborto. Mas e se você não for contra? Bem, em primeiro lugar eu digo que a coisa está feia, principalmente se você se disser cristão... Mas vou tentar fornecer a seguir alguns argumentos básicos da posição contra o aborto. Eu confesso: não sou nenhum expert nessa área e não li praticamente nenhuma defesa cristã formal contra o aborto. Meus comentários são baseados puramente em reflexões pessoais, e talvez estejam muito longe da literatura sobre o assunto. O leitor fique à vontade para pesquisar mais depois.

Premissa 3: Um óvulo fecundado ou um feto é um ser humano no sentido que pode-se aplicar o princípio bíblico de "não matarás".

Existem vários argumentos a favor do aborto — lidei com um na Premissa 1 e outro na Reclamação 7 —, mas talvez o princípio mais importante utilizado por todos eles seja o de que a proibição do homem de matar se aplique somente a homens já "formados", "estabelecidos", ou que exercem já alguma função no mundo. Ou seja, creio que o ponto mais central a ser tratado em qualquer discussão sobre o aborto seja: "a quem (ou ao quê) se aplica o princípio moral de não matar"?

Repare que esses princípios morais dependem de cosmovisões. O cristão aceita como autoridade a lei de Deus, revelada na natureza e nas Escrituras, para avaliar o certo e o errado. Já o humanista secular tem que buscar outra fonte de autoridade - geralmente a própria razão humana, ou quaisquer outros aspectos específicos da realidade. O resultado disso é que ele começa a enxergar qualquer proibição de "não matarás" apenas como um princípio de utilidade, capaz de garantir que a sociedade não se destrua (algo que Rousseau chamou de contrato social).

O desenvolvimento máximo desse tipo de raciocínio ocorre no materialismo histórico. O materialismo histórico entende que o significado atribuído à matéria é uma simples convenção social, e que portanto não há diferença alguma entre uma molécula, uma célula, um espermatozoide ou óvulo, um zigoto, um feto, um ser humano. Tais coisas são apenas “fatos brutos”, ou seja, "são o que são", e não significam nada à parte de uma interpretação do homem. Um materialista histórico pode rejeitar toda a argumentação anterior dizendo que estou procurando "pelo em ovo" ao tentar atribuir status ontológicos diferentes a espermatozoides/óvulos e zigotos. Ele pode ignorar todo o significado biológico dessas coisas e simplificar a questão dizendo que tudo faz parte do processo de formação de um ser humano, e então apelar para a sua definição de ser humano como um indivíduo que cumpre um papel social. Reduzindo, assim, o aspecto biológico ao social, ele começa a ver que tanto faz matar óvulos fecundados, fetos, bebês, adultos, animais – tanto faz uma coisa ou outra, se olhadas à parte do aspecto social. (Por isso não é de se espantar que os discursos pró-aborto ou quaisquer outros baseados no materialismo histórico são, do ponto de vista cristão, pragmáticos ao extremo.)

O cristão não pensa assim. Sua motivação para não matar outros seres humanos não reside apenas numa questão de contrato social, ou mesmo de alguma utilidade que ele é capaz de enxergar, mas no simples fato de que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus e que sua vida, portanto, deve ser respeitada. Sim, por um lado é verdade que há um valor no papel social que o homem cumpre – e talvez por isso existam diferentes níveis de seriedade em homicídios. Mas essa é apenas uma perspectiva da lei de homicídio. A vida humana não é só papel social ou qualquer outra coisa – é um reflexo do caráter de Deus, e por isso (se é que podemos usar este termo) é sagrada. E sendo sagrada, deve ser respeitada.

Tenho alguma reticência em justificar o não-assassinato de fetos com base no argumento de que “você está interrompendo o que um dia pode ser um grande homem”, porque no fim das contas, isso acaba sendo apenas uma versão mais desenvolvida de contrato social; ou seja, de que o valor do homem se reduz ao papel social que ele cumpre ou pode cumprir um dia. Eu reconheço que essa versão é mais verdadeira e profunda do que a primeira, porque não advoga o conhecimento e controle total da realidade, mas aprende a depender do mistério e do que ainda não se conhece (o que certamente faz parte de uma concepção da vida como sagrada). No entanto, não creio que isso seja tudo. Nós não deixamos de matar pelo que alguém pode ser, mas pelo que alguém já é: a primeira célula de um ser humano, criado à imagem de Deus.

Não tenho capacidade de desenvolver o argumento mais do que isso; como disse, minha intenção aqui era pelo menos mostrar que um feto e um óvulo fecundado têm a mesma dignidade de vida humana. O que sei é que nós, homens, não agimos moralmente apenas por razões funcionais, ou só pelo que vemos, entendemos e interpretamos. E embora talvez exista uma diferença de seriedade entre o assassinato de um óvulo fecundado ou de um bebê, ambos são pecado diante de Deus, pois consideram que a vida humana é menos do que realmente é. Como cristão, você deveria saber que não existem pecados “menos aceitáveis” ou “mais aceitáveis” diante de Deus. A sua tristeza diante de matar um óvulo fecundado ou um bebê deveria ser a mesma.

Mas enfim, caso toda essa digressão não tenha valido a pena, posso deixa-lo com alguns versículos das Escrituras que deveriam motivar uma reflexão:

“Pois tu formaste o meu interior,
    tu me teceste no seio de minha mãe.
Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste;
    as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem;
Os meus ossos não te foram encobertos,
    quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra.
Os teus olhos me viram a substância ainda informe,
    e no teu livro foram escritos todos os meus dias,
    cada um deles escrito e determinado,
    quando nem um deles havia ainda.”
Salmos 139.13-16

“Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas.”

Eclesiastes 11.5

3 comentários:

  1. Parabéns por ser coerente com seus princípios! Ainda não sou contra o anticoncepcional, pois vejo a origem da vida de outra forma. Respeito quem acredita que a vida começa no momento da fecundação. Mas fiz questão de levar todas as informações dos anticoncepcionais para dois pastores de uma igreja. Um deles disse que achou o assunto contraditório (não quer enxergar), e o outro não me respondeu, preferiu ficar em silêncio. Covarde! Na verdade, acho que 99% dos evangélicos não sabem ou não são informados por seus líderes sobre isso. Concluo que são hipócritas! Preferem ver suas igrejas lotadas. Como pode terem a cara de pau de fazer discursos contra o aborto mas não incluem o anticoncepcional? Cada qual com seu modo de pensar, mas seja coerente com seus princípios!

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    1. Ed3,

      Obrigado pelo comentário. Eu particularmente creio que quando o assunto é a proteção de vidas humanas, não basta simplesmente dizer "cada qual com seu modo de pensar", mas entendo que para fins de debate (ou seja, a um nível teórico) temos que manter um diálogo aberto e sincero. No entanto, a questão é séria, e se o Estado tem a prerrogativa de defender os indefesos, não creio que isso seria questão de deixar cada um escolher o que fazer.
      Mas sobre os pastores e líderes evangélicos, não penso que deveríamos ser tão rápidos em acusá-los de hipócritas, ainda mais quando sua amostragem foi apenas de dois indivíduos, hehe. Eles também padecem dos mesmos tipos de engano que citei no texto - muitas vezes eles sequer sabem dos problemas apresentados aqui, ou, mesmo sabendo, fazem vista grossa, assim como 99% da população (cristã ou não). Existe também o interesse em manter as igrejas cheias evitando questões polêmicas, mas nem tudo se resume a isso.

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    2. Verdade Fernando. a maior parte dos religiosos não tem acesso ou não quer às informações - eu era presbiteriano. Mas diante dessas drogas anticoncepcionais, eles não desconfiam e não querem se informar. Simplesmente se deixam levar pelo o que a ciência ou o Estado afirma. O Estado sempre muda de ideia! Até a década de 60, os EUA considerava aborto se o óvulo fecundado fosse eliminado. Mudaram essa concepção, por isso a droga se tornou legal. - será que a indústria farmacêutica fez lobby para que isso fosse alterado? talvez. Alguns estudos afirmam que o anticoncepcional previne câncer no útero. Mas no cristianismo, uma coisa boa para si não pode prejudicar outro ser - digo isso se levar em consideração que a vida começa na fecundação, sobre isso não tenho certeza!

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