sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Reflexões em “A Técnica” de Jacques Ellul, parte 1


Tendo lido recentemente a importante obra de Jacques Ellul, A Técnica e o Desafio do Século [1], resolvi começar uma série no blog apresentando e comentando muitas ideias (muitas mesmo!) que encontrei no livro. No entanto, antes de começar, também gostaria de fazer alguns breves comentários sobre o livro. De fato, A Técnica e o Desafio do Século pode ser considerado um dos mais importantes livros da segunda metade do século XX, conforme diz Robert Theobald no endosso da versão em inglês publicada pela Vintage Books. O livro tem reflexões muito profundas e originais sobre a natureza da técnica e o caráter da sociedade tecnológica, introduzindo variáveis que quase nunca são consideradas nas discussões atuais sobre economia, política e cultura. E sem dúvida, pessoalmente, o livro foi também um marco em minha vida. Vale a pena escrever uma série de posts sobre suas ideias!

Mas bem, Ellul tem seus problemas. Seu pessimismo é uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que mostra que as coisas não são tão simples quanto parecem no tema da tecnologia, também demonstram uma desconfiança excessiva para com toda invenção humana para a solução de problemas. Sua influência marxista e historicista também é bastante notável (embora ele não se declare um) – Jacques Ellul, ao lado de Lewis Mumford, pertence a uma linha de pensamento chamada determinismo tecnológico, que é nada mais que uma vertente do historicismo que enxerga o estado da sociedade atual como dependendo unicamente do desenvolvimento tecnológico [2].

Apesar disso, repito: o livro tem reflexões muito profundas e é indispensável para quem quer estudar tecnologia. São discussões e críticas fazem falta nos dias de hoje, e que sem dúvida são muito mais razoáveis do que qualquer discurso marxista moderno. Jacques Ellul é anarquista e percebe acertadamente que, se a organização empresarial capitalista atual já não é boa, tanto menos será o Estado totalitário, uma vez que consiste na pretensão humana de controlar e curvar a realidade à sua vontade através do exercício da técnica (seja ela científica, seja organizacional) [3]. Enfim, se é que o leitor conhece um pouco da filosofia de Dooyeweerd acerca do reducionismo dos aspectos e a idolatria, perceberá que Jacques Ellul apresenta aspectos reais e importantíssimos da realidade técnica moderna; mas que, no entanto, não resumem toda essa realidade. Assim, faremos bom proveito de seu livro se percebermos que suas ideias são boas, mas não são tudo. São ideias geniais e profundas, mas não consistem na razão de ser do Universo. Temos que tomar cuidado com o reducionismo e a idolatria.

Posso dar um exemplo do que estou dizendo. Ellul às vezes generaliza o fato de que certas técnicas hoje existem apenas para fazer o mundo técnico insuportável e hostil ao homem algo suportável [4]; incluindo nisso a educação, a orientação vocacional, a psicanálise, a medicina, o entretenimento, o consumismo, a propaganda e até o esporte. Não vamos negar: que constatação poderosa é essa! Ela é profundamente teológica: o homem cria ídolos para conseguir derivar o sentido de sua existência em uma realidade que ele mesmo quis criar para si, e que, inevitavelmente, não será a melhor para ele. Jacques Ellul faz uma magistral acusação da idolatria moderna presente nessas áreas, e como nós automaticamente nos colocamos a servir a esses ídolos, tornando-nos escravos deles, sem perceber que, ao fazer isso, estamos abandonando a realidade primária para a qual fomos criados. O soma huxleyano nunca foi tão presente em nossa sociedade! Afinal, você já parou para pensar no motivo do Globo Esporte passar no horário em que paramos nossas atividades corridas do dia a dia e temos um pequeno tempo para “pensar na vida” enquanto comemos? Mas não... o que fazemos é ligar a televisão e obter um pouquinho mais de sentido para nossas vidas nos confortando com o gol do Neymar!

No entanto, cuidado com a generalização. Será que todo artifício humano hoje tem sido uma negação de responsabilidade e tentativa de distração e adaptação em um mundo que não deveria ser o que é? Ou, ainda mais: será que parte disso não seria uma própria operação da graça de Deus nos homens, chamando-os atenção às coisas gloriosas do universo ao invés de uma tentativa fútil de resolver seus problemas por nossas próprias forças?

Confesso que sou muito tentado a resumir todo o entretenimento moderno ao escapismo, e tenho bastante pena de quem diz: “vou fazer o quê, isso aqui é o que eu tenho e não tenho outra escolha”. Mas tenho que concordar que, nesse tipo de comentário, há uma complexa mistura de uma negação de responsabilidade e uma real inevitabilidade da situação; uma mistura que não é simples de entender. É bastante verdade que a sociedade tecnológica atual tem negado a iniciativa, personalidade e criatividade humana ao tornar tanto o trabalho como o entretenimento algo racionalizado e “terceirizado”, e, diante disso, as pessoas perdem a noção de que estão no trabalho que estão porque querem, que ficam o dia inteiro no computador porque querem, e que assistem o Globo Esporte na hora do almoço porque querem. Infelizmente, essa é a influência do tecnicismo até na consciência das pessoas: tornar decisões livres e responsáveis em decisões de necessidade técnica. A sociedade técnica, aliás, penaliza e ameaça as decisões livres – ninguém quer se expor ao perigo de não ter o que trabalho que aparentemente precisa, de não ficar na frente do computador que aparentemente precisa, de se utilizar do entretenimento do esporte que aparentemente precisa.

Mas então o outro lado da história surge, querendo dizer algo: será que não poderíamos deixar de enxergar tais coisas como necessidade, e as enxergássemos como bênção? Ellul parece não considerar tal hipótese, devido ao historicismo que o leva a enxergar toda a realidade atual como artificial e hostil ao homem. Ir ao cinema no fim de semana pode ser muito proveitoso se nos lembrarmos daquela distinção que Tolkien faz entre recuperação e escapismo, que já expliquei neste post. As imagens que recebemos através da mídia e das técnicas modernas nem sempre são formas de sair de nossa realidade e ir para outra, mas também podem ser formas de trazer outra realidade para a nossa. É verdade que isso quase nunca ocorre e, de fato, grande parte do entretenimento hoje é feito para dificultar nosso exercício de criatividade. Ainda estamos muito longe de buscarmos uma integração daquilo que se nos apresenta através de imagens com as nossas realidades imediatas e cotidianas; e isso talvez porque estamos contentes demais com as superproduções artísticas e culturais que nunca poderíamos fazer sozinho e trabalhando oito horas por dia. No entanto, isso nos levaria a desprezar qualquer empreendimento voltado para o prazer humano, entendendo-o sempre como uma forma de escapismo? Creio que não.

Tais reflexões ainda precisam ser bastante exploradas e aprofundadas; o que, com a graça de Deus, tentarei fazer posteriormente (não nesta série). No momento, porém, estou apenas me limitando a apresentar os argumentos de Jacques Ellul, e nos próximos textos, apresentarei mais alguns comentários sobre a forma como ele enxerga o entretenimento e a política estatal. Comentários e discussões sobre o tema são sempre bem-vindos nos comentários do blog!

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[1] Este é o nome dado à tradução em língua portuguesa do livro, por Roland Corbisier, publicada pela editora Paz e Terra em 1968. O livro, infelizmente, não foi mais publicado desde então. A leitura que fiz, portanto, é da tradução em inglês, intitulada The Technological Society, por John Wilkinson (Vintage Books, 1967).
[3] A definição que ele faz de sua posição política é curiosa: um liberalismo não-capitalista. Mas estou sem tempo para procurar a página do livro onde ele diz isso, e aproveito a liberdade do blog para não colocar... se alguém souber, me ajude, hehe... E embora eu não me declare assim, é interessante observar que o anarquismo de Ellul está longe de se encaixar espectro político usual de direita/esquerda. Para uma discussão mais profunda sobre isso, confira o artigo de André Venâncio, Armadilhas do Vocabulário Político: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=397
[4] Jacques Ellul, The Technological Society (Vintage Books, 1967), p. 322.

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