quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O valor da recuperação

Nota: eu confesso que meus textos têm sido muito grandes, e isso me incomoda. Me incomoda não apenas porque tomo um tempo considerável do leitor, mas porque às vezes desconfio que passo muito tempo tentando ligar e organizar minhas ideias, de forma que que raramente consigo terminar um texto e, se consigo, o texto fica bastante "carregado". Não sei até onde isso é parte de meu estilo, e onde isso começa a revelar um problema meu. Mas o que me preocupa é que, várias vezes, posso estar trazendo para mim um trabalho muito maior do que o que bastaria para os propósitos deste blog. Já faz meses que não escrevo... E quem dera se eu pudesse escrever mais, e desenvolver muito mais as minhas ideias; quem sabe até publicar alguns artigos e/ou livros algum dia. Só que, no presente momento, as ideias ainda estão germinando, e este processo demora, de forma que se eu quisesse escrever com o rigor e extensividade que gostaria, teria que dedicar muito mais tempo e esforço. Como não tenho isso, mas ainda tenho um blog onde prometi expor ideias sobre tecnologia e cristianismo, resta aceitar que preciso realmente sair "arremessando" ideias soltas que me vêm à mente e ver o que acontece. Talvez eu até já estivesse fazendo isso antes, mas agora estou tomando consciência do fato.

Inclusive sei de um tema que valeria a pena discutir posteriormente: a quantidade de trabalho que às vezes acumulamos com a necessidade de ser extensivo em tudo o que fazemos. Isso me soa como uma mentalidade de quem se acostuma a ver super-produções de Hollywood e não consegue sequer imaginar uma história de fantasia por conta própria. Não precisamos ser sempre extensivos. É claro que isso abre muito espaço para ideias incompletas, entre as quais podem existir muitas que são baseadas em impressões pessoais, sem muito rigor de pensamento. Mas será que deveríamos ter medo disso? Eu acho que não. E para já mostrar que estou tentando não ser tão extensivo, vou deixar para explicar o porquê disso em outra ocasião. Vamos seguir para o post, que desta vez tentará ser mais curto...
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Ultimamente venho refletindo muito na definição de Tolkien de recuperação através da fantasia.

"Não desanimamos, ou não precisamos desanimar, com relação ao desenho porque todas as linhas precisam ser curvas ou retas, nem à pintura porque só existem três cores "primárias". Na verdade podemos agora ser mais velhos, na medida em que somos herdeiros, na apreciação ou na prática, de muitas gerações de ancestrais nas artes. Nessa herança de fartura pode haver o perigo do tédio ou da ansiedade para ser original, e isso pode levar à aversão por um desenho fino, um padrão delicado ou cores "bonitas", ou então à mera manipulação e elaboração excessiva de material antigo, engenhosa e insensível. Mas a verdadeira estrada para escapar de tal enfado não pode ser encontrada no que é intencionalmente inepto, canhestro e disforme, nem em fazer todas as coisas obscuras ou incessantemente violentas, nem na mistura de cores passando da sutileza à monotonia, ou na fantástica complicação de formas até o ponto da tolice a caminho do delírio. Antes de atingirmos tais estados precisamos de recuperação. Precisamos olhar o verde outra vez e nos surpreender de novo (mas sem sermos cegados) com o azul, o amarelo e o vermelho. Precisamos encontrar o centauro e o dragão, e talvez depois contemplar de repente, como os antigos pastores, os carneiros, os cães, os cavalos - e os lobos. As histórias de fadas nos ajudam a realizar essa recuperação. Nesse sentido só o gosto por elas pode nos tornar, ou manter, infantis."
J. R. R. Tolkien, "Sobre Histórias de Fadas", pgs. 64-65

Cito toda esta passagem porque ela é uma daquelas que marcam as nossas vidas para sempre. Certamente ainda vou retornar a ela várias vezes nos meus textos. Mas o que gostaria de destacar, no momento, é a última parte do trecho, onde Tolkien ressalta a necessidade de nos surpreendermos de novo.

A ideia pode soar clichê, mas não é o que vemos por aí. Em um mundo onde predomina uma cosmovisão que eu chamaria de tecnicistasistemista e informacionista, nossa visão do conhecimento como algo que se empilha e armazena é bastante contrária à essa ideia de recuperação. Existe muito a ser explorado aí. Começa na concepção moderna de progresso, e prossegue principalmente na questão do foco intenso que às vezes damos às telas de computador, aos filmes e jogos, e até aos livros, enquanto estamos trancados dentro de lugares horríveis, para os quais não se dá a menor importância.

Mas partindo para considerações mais práticas, lembro-me certa vez de Norma Braga falando sobre arte moderna, e dizendo que "é incrível como não saímos disso, desde o século XIX: a ilusão de autenticidade e o horror à imitação (mesmo à boa imitação)". Sim, temos horror à imitação, e nos incomodamos muito com qualquer coisa que pareça repetição! (Eu mesmo estou lutando contra isso, afinal, até o que ressaltei neste post pode não ser coisa nova...) Embora o contexto original dessa citação seja arte moderna, é fácil notar o caso em muitas outras áreas, a começar da pedagogia.

Pedagogia e Recuperação

Não é nem um pouco difícil encontrarmos, no meio universitário, professores que não estão dispostos a ensinar os "be a bás" de uma disciplina, e passam todo o tempo de aula conversando sobre assuntos avançados, que interessam só a eles em suas pesquisas e questões. Sem descartar a explicação do egoísmo e arrogância, tenho que dizer isso também é uma completa falta de recuperação; de surpreender-se de novo com a beleza, mistério e grandeza do Deus revelado nas matérias que consideramos básicas. É inquietante pensar que essas pessoas fazem isso geralmente crendo, consciente ou inconscientemente, em um ideal de "progresso científico", como se ele fosse única coisa de valor nesta vida.

Na verdade, a situação acaba sendo pior, pois mesmo com os que se dispõem a ensinar o básico, a falta de encanto com a matéria continua presente, e o que acaba justificando o trabalho fica sendo só o ideal de "formar pessoas competentes para o futuro". Não estou dizendo que esta justificativa é errada. Mas ela não deveria ser a única justificativa, pois se vista isoladamente, continua refletindo uma mentalidade de progresso científico que enxerga este conhecimento básico apenas como algo necessário para atingir os "anseios mais altos" do homem. Este discurso é muito comum nas justificativas para o projeto e desenvolvimento de ciência e tecnologia, e, como pretendo explorar em próximos textos, se apoia em promessas falsas de poder, feitas por ídolos do coração.

Espaço e Recuperação

E o que dizer quando percebemos que nosso mundo está cada dia menor, sufocado dentro dos cubículos de escritório? Será que já exploramos tudo o que Deus nos deu para explorar? Será que já sabemos como são as árvores, as florestas, os lagos, e as nuvens? Alguns gostam de dizer que somos uma aldeia global. Mas o resultado trágico disso, conforme aponta o excelente artigo de Cláudio Marra, é somente confusão:

"Uma aldeia global. Um mundo que é uma esfera. O único lugar habitável existente conhecido, pelo menos por enquanto. Quando os Pais Peregrinos ingleses se ressentiram de falta de liberdade religiosa na Inglaterra do século 17, embarcaram no Mayflower e se mudaram para a América do Norte. No mesmo século, huguenotes saíram da França para a África do Sul, escapando do extermínio; judeus fugiram de Recife para Nova Amsterdã (futura Nova York) por ocasião da retirada dos reformados holandeses e aproximação dos intolerantes católicos portugueses. Incontáveis têm sido os movimentos migratórios ao longo da História, por diversas razões. Desta aldeia global, porém, não temos para onde ir. A confusão só pode aumentar."

Nossa cultura está repleta de fantasia girando em torno de viagens intergaláticas, contato com alienígenas... e a célebre frase: "espaço, a fronteira final". O romance de ficção científica de C. S. Lewis, "Além do Planeta Silencioso", também discute muito o tema. A resposta é simples, mas ainda precisa ser muito explorada e desenvolvida: falta-nos recuperação.

Teologia e Recuperação

Por fim, vale a pena citar outra situação comum que não tem muito a ver com tecnologia, mas ajuda a ilustrar o ponto (além de ser importante para os cristãos). Refiro-me ao ensino na igreja. Muitos professores e mestres em uma igreja local podem adotar uma atitude semelhante à que ressaltei acima, afastando-se das verdades básicas do evangelho da graça, para seguirem por temas mais específicos e interesses pessoas. Isso, por sua vez, não implica necessariamente estudos intelectualizados e difíceis para pessoas comuns. A falta de recuperação nas verdades bíblicas também pode gerar aulas e estudos cada vez mais medíocres. O caso mais extremo disso é o que ouvimos por aí: "eu já estudei tal assunto da Bíblia; hoje já cansei". Será que podemos nos cansar da Bíblia? Ah, como precisamos de recuperação! Estamos confundindo recuperação com repetição. Isso nos leva a achar que mensagem do evangelho da graça parece não ter tanta relevância assim em nossas vidas... Parece apenas uma base teórica, ou apenas uma confissão que faz quem quer ser membro de igreja e provar que é servo de Cristo. A falta de recuperação nos leva a abandonar o Sola Scriptura.

Talvez um grande problema decorrente de nossa herança católica romana é que pastores e líderes chegam a acreditar que devem refletir e aplicar uma verdade completamente na vida de todas as pessoas. No entanto, esquecemos que quase sempre a responsabilidade para meditar na Bíblia é individual. Isso significa que as verdades bíblicas, por mais simples que possam nos parecer, são sempre encanto e prazer, pois frutificam de formas diversas, em diversas situações e pessoas. São vivas, eficazes, e mais cortantes do que qualquer espada de dois gumes. Ao invés de nos preocuparmos com os pontos mais específicos e avançados de determinados temas na vida e teologia cristã, às vezes o que mais precisamos é o Evangelho puro e simples. Sempre há proveito em cada exposição do Evangelho que ouvimos.

Recuperação não é repetição. Cada vez que nos reencantamos com as verdades eternas, somos transformados. E recuperação não é algo enfadonho e que não produz fruto. Pois "todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito (2 Coríntios 3.18). O mínimo que se pode esperar no ensino da igreja é a exposição clara e fiel das Escrituras. Suas verdades sempre nos surpreendem.

Às vezes tenho a impressão que mesmo os mais intelectuais entre os cristãos reformados ignoram, de certa forma, a influência da mensagem da graça em todos os aspectos da vida humana, e isso se deve a uma falta de recuperação. Quando desenvolvemos ideias, principalmente na área da tecnologia, corremos o risco de achar que o Evangelho é só uma base filosófica que ajudará os cristãos a fazerem uma tecnologia "boa". Só que se o Evangelho for só isso, teremos muitos problemas. Dizemos que salvação é pela fé, mas muitas vezes corremos atrás de santificação através de nossas obras - seja por raciocínios teóricos ou ações "práticas" -, o que revela um moralismo perigoso. Talvez eu esteja sendo injusto aqui, mas quando soa muito estranho ver um capítulo que fala sobre "Tecnologia e Redenção", no livro "Shaping a Digital World", de Derek C. Schuurman, focando-se apenas em aspectos normativos da tecnologia. A mesma impressão persiste em muitos estudiosos de Dooyeweerd... bem, talvez eu esteja errado. Mas caso seja isso mesmo, penso que a melhor solução continua sendo frequentar uma igreja onde as Escrituras são expostas fielmente, e o Evangelho da graça é visto não como uma verdade que se aceita um dia e se guarda na memória, mas como algo que é fonte de toda nossa vida e prazer. Falta-nos surpreender cada dia mais com a beleza e grandeza da cruz.

E mais: muitas vezes o que mais precisamos seja até participar de atividades comum do lar, fazer uma caminhada, ou dormir. Jonathan Edwards disse que é muito mais real sentir a doçura do mel do que apenas dizer que ele é doce. Isso obviamente não implica em um anti-intelectualismo - muito pelo contrário, ajuda a dar a direção correta ao intelecto. Recuperar a verdade é ver que Deus muitas vezes no chama a fazer algo pequeno, mas belo, no lugar de ficarmos com a cabeça enfiada em uma tela de computador, correndo atrás de teorias "ultra-complexas" que podem não levar a lugar algum.

Conclusão

Enfim, tudo o que disse ainda precisa ser mais explorado em muitos aspectos. Talvez isso até soe desequilibrado para um lado mais subjetivo ou mais objetivo. Mas é que ainda há muito a aprender, e é o que dá para colocar em um texto relativamente pequeno como este. Fica a minha conclusão: falta-nos encanto e recuperação porque falta-nos uma visão focada muito mais na glória de Deus do que em nossas realizações. Se é que buscamos um reencantamento da vida humana, a questão está em cada vez mais parar de olhar para o que podemos e/ou devemos fazer, e manter os olhos no que Deus faz em nós e por meio de nós. Isso é recuperação, e pode ser algo muito sutil em várias situações, pois leva a um conflito entre fé e obras, ou mesmo entre ativismo e comodismo (eu não disse que o Evangelho da graça é importante em todos os aspectos?). Mas creio firmemente que é o caminho a se trilhar. Que possamos considerar a recuperação e dizer como Agostinho, que volta-se para Deus e diz: "ó beleza tão antiga e tão nova"!

Um comentário:

  1. Excelente!
    Ao longo da leitura me lembrei das vezes em que me emocionei com passagens bíblicas, ou com uma música, ou com uma propriedade da Matemática, ou com uma paisagem ou com o sorriso de minhas filhas, mesmo sendo coisas que já conhecia e havia observado inúmeras vezes antes.
    De fato, a beleza não está na novidade do que vemos, mas na percepção da harmonia daquilo que observamos, seja na primeira ou em todas as repetições posteriores dessa contemplação.

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