segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Anticoncepcionais Hormonais: Por que deveríamos ser contra

1. O Silêncio

Existem certos assuntos sobre os quais o silêncio das pessoas é preocupante. Isso não se deve apenas ao contexto de internet em que vivemos – afinal, o Facebook nos tornou incapazes de ler um texto com mais de dois parágrafos, já que tudo é visto às pressas, no intervalo dos nossos afazeres diários –, mas também porque muitas vezes não queremos, ou não é cômodo, que busquemos a verdade.

Entre estes silêncios está o debate sobre anticoncepcionais hormonais. É um silêncio que me entristece, mas que por outro lado também não me assusta. Não me assusta porque eu mesmo já preferi manter o silêncio. Diante da possibilidade da pílula, ou mesmo outras formas de aplicação dos anticoncepcionais hormonais, como adesivo, injeção ou implante, ser realmente abortiva, eu procurava tentar não me informar, com receio de que isso pudesse ser provado como verdadeiro. Foi, realmente, um pecado que cometi, pois a Bíblia afirma claramente que a ignorância proposital será julgada por Deus (Pv 24.12). E é claro que muita coisa corroborou para que eu lavasse as mãos – a começar da definição de aborto dada pelos médicos, que é bastante diferente da que um cristão deveria ter, e que levou-me a não pensar muito se poderia haver aborto com o uso da pílula. No entanto, já tinha lido sobre esse problema de definição, e tinha sido alertado quanto à possibilidade de estar sendo enganado, mas resolvi deixar isso de lado. Evitei a estante de livros, com aquele capítulo sobre contracepção no livro "Deus, Casamento e Família", de Andreas J. Köstenberger e David W. Jones, que havia lido antes. Resolvi não colocar a mão neste assunto tão sério, tomando uma decisão precipitada e sem refletir da forma que deveria. E, assim, pequei.

Não poderia esperar reações diferentes de outras pessoas. Diante de um alerta de que pode não ser exatamente o que todo mundo pensa ou faz, não foram poucas as vezes em que vi cristãos evitando o debate, seja porque já não usam anticoncepcionais hormonais (por questões de saúde), seja porque o homem já fez vasectomia, ou seja até mesmo porque realmente não abrem mão da comodidade que eles proporcionam. "Bom, eu não uso mesmo, então o problema é seu". "Todo mundo faz, não? Não pode ser errado".

Isso é preocupante, e me entristece. Os cristãos que se isentam da discussão porque ela não se aplica à própria vida deveriam saber que parte de sua tarefa como comunidade de discípulos de Cristo está em se importar e buscar ajudar seus irmãos. Embora eu entenda que muitos não vivenciem esse dilema e portanto não tenham uma obrigação tão urgente de compreendê-lo a fundo, isso também não permite que os cristãos se tornem negligentes em um assunto tão sério nos dias de hoje. Imagine um pastor aconselhando um casal de noivos. Você acharia amoroso que esse pastor dissesse: "ah, pesquisem vocês porque isso não me concerne, eu já fiz vasectomia"? Não, não é amoroso e também pode levar a consequências sérias. E se esse mesmo casal, por falta de quem os ajude em relação a isso nos círculos cristãos, se aconselhar com ginecologistas de mentalidade secular e se convencerem de que devem usar até mesmo métodos abortivos? Será que isso, de certa forma, não responsabiliza o pastor, ou pelo menos o silêncio da igreja em geral, acerca do tema? Felizmente, hoje a internet e os livros ajudam muitos casais. Eu e minha esposa chegamos às conclusões que apresento aqui apenas por causa de livros e contato com alguns amigos — estes últimos geralmente sendo católicos. Mas como seria melhor se tivéssemos o apoio dos irmãos nos círculos protestantes! Vários casais hoje estão perdidos com relação ao tema, não encontrando suporte algum dentro de suas igrejas e, à semelhança do que aconteceu comigo e minha esposa, talvez depois descubram que fizeram algo errado por muito tempo e que poderiam ter evitado.

Já quanto aos que não se importam muito e têm a impressão de que isso não pode estar errado, sim, eu entendo que é uma atitude sábia nós não aceitarmos logo de cara algumas ideias incomuns que vemos por aí. A inflexibilidade, às vezes, é boa. Mas tomemos cuidado! Certos assuntos são bastante sérios, e exigem bastante reflexão antes de qualquer decisão, ainda mais quando vemos tão poucos pronunciamentos da parte dos cristãos, e tantos da parte do pensamento secular. Você pode muito bem estar se isentando de pesquisar e buscar entender sobre esse assunto porque realmente não quer correr o risco de ter que mudar. Vivemos em tempos de pragmatismo e comodismo. As pessoas não querem parar para pesquisar sobre anticoncepcionais hormonais porque isso poderia trazer muitos incômodos. E que incômodos, não? Como se todas as pessoas antes de 1960 (data da invenção da pílula) tivessem o maior problema do mundo se não quisessem ter filhos! Ah, como essas pessoas sofriam, não? Parece que hoje realmente ficamos dependentes de certas tecnologias que nos são empurradas, julgando-as indispensáveis para nossas vidas. Mas, por ironia, em seguida estamos todos falando que o cristão deve "tomar sua cruz e seguir a Cristo", e que deve fazer concessões e sacrifícios para fazer o que agrada a Deus. Pois bem, estamos esperando alguém se levantar para dizer o que seja isso.

Bem, eu confesso que não sei se deveria começar este texto de forma séria antes de apresentar meus argumentos contra o anticoncepcional hormonal. Talvez você ache tudo isso um drama pessoal, e com razão, porque ainda não se convenceu do meu ponto de que deveríamos ser contra. Mas peço-lhe um favor. Continue lendo, avalie o que eu digo. Meu objetivo é simples: quero mostrar que o anticoncepcional hormonal não é uma forma de contracepção aceitável por quem respeita a vida como portadora da imagem de Deus. Se isso, porém, não te convencer, então pelo menos perceba que a questão não é simples, e que, diante disso, é melhor não fazer o que pode não ser errado do que fazer o que pode ser errado. E pode ser que você discorde disso também, e venha conversar comigo. Isso é válido. A única coisa que eu creio não deveria ser nossa atitude seria ignorar o debate com um simples “é complicado”, e continuar a vida como se não tivesse visto nada importante.

Também tenho que deixar claro que não acredito estar argumentando contra os anticoncepcionais hormonais como uma forma de legalismo, ou um fardo desnecessário que limita a liberdade cristã conquistada em Cristo. Sei muito bem que quer comamos, quer bebamos, fazemos isso para a glória de Deus (1Co 10.31); mas certamente isso não inclui o “pecar para a glória de Deus”. Ninguém aborta ou se responsabiliza por um aborto “para a glória de Deus”, pois a glória de Deus está no respeito à vida humana, criada à imagem de Deus, e não no contrário disso – o assassinato. Estou argumentando contra os métodos hormonais por um motivo muito claro: a importância de nós, cristãos, vivermos de forma digna do Evangelho, obedecendo à sua vontade que é boa, perfeita e agradável, testemunhando a glória de Deus ao mundo. Isso, no entanto, só é possível quando renovarmos a nossa mente e não nos amoldarmos a este século – uma tarefa que exige trabalho de reflexão, sensibilidade cultural, e principalmente uma atitude de oração e um coração aberto para o agir transformador do Espírito Santo. Simplesmente dizer que a Bíblia não proíbe o uso não é um argumento válido – afinal, ela também não o permite.

Ainda antes de começar, gostaria de recomendar o livro de Randy Alcorn sobre o assunto: "Does the Birth Control Pill Cause Abortions?", disponível gratuitamente em https://store.epm.org/product/does-the-birth-control-pill-cause-abortions. Um excelente texto que resume o livro já foi traduzido e publicado no blog da Fernanda Ferreira (http://fernandaferreira.art.br/2014/01/sera-que-a-pilula-anticoncepcional-causa-abortos-um-resumo/). Talvez Randy Alcorn tenha explicado melhor do que eu, e confesso que é uma mistura de (boa) frustração e alegria quando vemos que outros autores também já se aventuraram a expor o que vamos falar aqui (além de Alcorn, Mark Liederbach também apresenta uma breve discussão sobre o tema em “Deus, Casamento e Família”, por Andreas J. Köstenberger e David W. Jones). Isso me deixa mais calmo, pois retira um pouco da urgência de expor o que pretendo escrever, e me consola por saber que não sou uma voz que clama no deserto. Também é por isso que alguns detalhes específicos, e principalmente os dados, eu deixo para que o leitor confira no livro/artigo de Alcorn. Resolvi escrever sobre este assunto com uma abordagem um pouco diferente: enquanto Alcorn faz uma pesquisa mais meticulosa sobre os dados da medicina, meu texto tenta lidar com algumas bases mais filosóficas e mesmo pastorais sobre o tema.

2. Os Fatos

Embora não seja o meu foco apresentar detalhadamente todos os dados médicos, preciso apresentar o básico; afinal, muitos casais sequer sabem da forma como os anticoncepcionais hormonais agem. Os leitores que quiserem verificar melhor esses dados podem ler as bulas dos medicamentos, que de fato apresentam o que vou afirmar a seguir, ou mesmo consultar o livro ou artigo de Randy Alcorn citados anteriormente.

Fato 1: Anticoncepcionais hormonais funcionam alterando o metabolismo feminino de forma a impedir a gravidez, funcionando de três formas, em ordem decrescente de probabilidade: 1) inibindo a ovulação (i.e., reduzindo a probabilidade de que um óvulo seja liberado); 2) tornando mais espesso o muco da cérvix e assim dificultando a chegada dos espermatozoides ao útero; e 3) alterando o revestimento do útero de forma a não permitir a fixação de um óvulo fertilizado. Ou seja, se a primeira forma falhar, ainda se tem a segunda e a terceira; se a segunda também falhar, ainda se tem a terceira; se os três mecanismos falharem, a gravidez acontece.

É importante esclarecer: por "anticoncepcional hormonal" me refiro aos métodos contraceptivos que promovem alterações hormonais no corpo feminino, seja através de pílulas, implantes, injeções ou adesivos cutâneos, de forma a prevenir a gravidez. A prevenção é feita de três formas. Citando o Physician's Desk Reference, lemos:

"A supressão da ovulação é o modo principal pelo qual os contraceptivos orais, Depo-Provera e Lunelle evitam a gravidez; o sistema de implante causa a supressão da ovulação em cerca de 50 por cento dos casos. Ao longo de cada ciclo da pílula, porém, e de modo contínuo nos implantes Norplant e no Depo-Provera, o muco que reveste o cérvix, local onde o sêmen entra no útero, permanece espesso e pegajoso de modo a dificultar a passagem do sêmen por ele. Esse empecilho viscoso também atua sobre a célula do espermatozóide. Evita a fertilização ao interferir com as alterações químicas dentro do espermatozóide que lhe permitem penetrar o revestimento externo do óvulo.

Ainda que a ovulação e fertilização ocorram, os métodos hormonais oferecem outra medida de proteção: alterações no revestimento do útero. Normalmente, o estrogênio inicia o espessamento do revestimento uterino na primeira parte do ciclo, enquanto a progesterona entra em cena posteriormente para ajudar o revestimento a amadurecer. Uma vez que os dois hormônios estão presentes ao longo de todo o ciclo da pílula e a progesterona é fornecida continuamente pelos implantes e a injeção, as variações hormonais normais são mascaradas e raramente o revestimento tem a oportunidade de se desenvolver o suficiente para nutrir um óvulo fertilizado." (citado em Köstenberger, "Deus, Casamento e Família", p. 135).

É com a terceira forma de prevenção de gravidez que o problema do aborto surge, pois neste mecanismo pode haver a eliminação de um óvulo fecundado ou zigoto – o qual, conforme argumentarei a seguir, é um ser humano.

Fato 2: A definição de aborto utilizada pelos médicos é vaga, e geralmente considera que aborto é apenas uma intervenção “física” no desenvolvimento de um organismo que já esteja fixado à parede uterina.

Eu não sei qual foi a necessidade que a comunidade médica teve para estabelecer uma definição de aborto que é completamente contrária ao senso comum. Sei, obviamente, que foi uma necessidade técnica e pragmática, como acontece quase sempre hoje. Posso contar que eu e minha esposa, ao perguntarmos a uma ginecologista se determinada pílula anticoncepcional era abortiva, ouvimos um redondo "não, podem ficar tranquilos que não é". Alguns meses depois, no entanto, tomamos conhecimento das informações que apresentei no Fato 1, além de lermos a bula do medicamento que minha esposa tomava e verificarmos exatamente isso. Ficamos pasmos. Foi então que consultamos novamente o livro de Andreas Köstenberger e David W. Jones, "Deus, Casamento e Família", e lemos o alerta de Mark Liederbach (que escreve a seção sobre métodos contraceptivos):

"... devido ao uso um tanto enigmático da terminologia referente a esse assunto, os casais prudentes, que buscam o conselho do clínico geral e/ou ginecologista, devem formular suas perguntas com exatidão e cuidado. Um jovem casal talvez pergunte ao seu médico, por exemplo, se determinada forma de contracepção oral ou química apresenta o risco de causar aborto. A resposta pode variar, dependendo de como o médico define 'aborto' ou 'gravidez'" ("Deus, Casamento e Família", p. 136).

Decepcionados com a ginecologista, então, eu e minha esposa apresentamos isso na próxima consulta com ela. Dissemos que não achamos que seja tão simples concluir que a eliminação de um óvulo fecundado não seja aborto. Por que entender aborto como aquilo que se daria somente depois que um zigoto fosse preso à parede uterina? O cinismo não podia ser maior: "é, é verdade, vocês têm razão. Mas me digam, qual outro método vocês pensam em usar então? Esse aqui? Ou esse outro? Bla bla bla...". Pois bem, o cliente tem sempre razão.

Repare que esses dois primeiros fatos exigem um mínimo de coerência da parte das pessoas. Algumas vezes, na cultura popular, as pessoas condenam o uso de DIU e "pílula do dia seguinte" dizendo que são abortivos. No entanto, diante desses fatos, ou você considera tanto os anticoncepcionais hormonais quanto o DIU e a "pílula do dia seguinte" como abortivos, ou não considera nenhum deles. A única diferença entre eles é que no caso de um anticoncepcional hormonal a eliminação de um óvulo fecundado pode acontecer, ao passo que nos outros dois métodos a eliminação já é feita intencionalmente. No entanto, creio que que a responsabilidade pelo mal causado, independentemente do método, é da pessoa que o usa (confira a Reclamação 3 a seguir).

Fato 3: Anticoncepcionais hormonais oferecem riscos à saúde.

Este fato não diz nada acerca do problema do aborto, mas também pode influenciar a decisão de alguns casais. Frequentemente nós vemos por aí alguns textos falando dos riscos que os anticoncepcionais apresentam à saúde. Alguns são realmente mal escritos e pecam por uma questão muito básica: eles observam os prejuízos à saúde que apenas alguns medicamentos provocam, e logo generalizam para todos, dizendo que "os anticoncepcionais causam isso ou aquilo". Recentemente uma amiga que cursa medicina me alertou em relação ao fato de que hoje em dia muitos dos efeitos colaterais de anticoncepcionais não mais existem, seja por mudanças na dosagem ou mesmo nas formas como eles agem no corpo. Mas as possibilidades de efeitos colaterais sempre existem, como em vários medicamentos que tomamos. Você não precisa ser um especialista para saber disso: basta ler a bula do remédio. Você lê a bula? Pois bem, faça o favor de ler.

Penso também que mesmo se não houvesse nenhum risco previsto na bula, ou mesmo que um dia a medicina pudesse nos dizer que certos medicamentos não fazem nenhum mal à saúde... who knows? Você pode dizer com certeza absoluta que sabe tudo o que o medicamento está fazendo no seu corpo? Tenho certeza de que não. A medicina não pode te garantir nada, e por isso, cuidado com o que você toma!  Meu conselho sempre será: evite tomar medicamentos, principalmente os medicamentos fortes. Avalie o quanto de sua saúde você está disposto a colocar em risco em troca de um benefício imediato. E lembre-se: no caso de um anticoncepcional, será uma substância ingerida por vários anos de sua vida, provavelmente todos os dias. É muito diferente de tomar um comprimidinho de vez em quando, quando você fica gripado.

3. Premissas e Conclusões

Eu sei que, diante do que foi apresentado até agora, não é de todo óbvio concluir que "eliminar óvulos fecundados" é o mesmo que "matar seres humanos". Embora, como disse, na cultura popular muitas pessoas já considerem isso verdadeiro (tornando incoerente, portanto, seu posicionamento contra-DIU e a favor do anticoncepcional hormonal), talvez diante dos fatos elas se disponham a "repensar o senso comum", argumentando que óvulos fecundados não são pessoas e garantindo, assim, o seu conforto.

Mas para lidar com esse argumento de forma satisfatória eu precisaria fazer uma digressão bem extensa, a qual julguei que atrapalharia o fluxo do texto. Por isso, resolvi deixar isso em um apêndice no final. Fique à vontade para ler agora ou depois. O que farei nesta seção será apenas apresentar as premissas que estou utilizando para chegar a certas conclusões, que são o cerne do meu texto.

Premissa 1: Um óvulo fecundado não é parte do corpo da mulher ou do homem - é um novo organismo.


Premissa 2: Um óvulo fecundado não preso à parede do útero não é menos humano do que um óvulo fecundado preso à parede do útero, e, portanto, também não é diferente de um feto.


Premissa 3: Um óvulo fecundado ou um feto é um ser humano no sentido de que se pode aplicar a ele o princípio bíblico de "não matarás".


Se os fatos e as premissas acima são verdadeiros, então temos as seguintes conclusões:

Conclusão 1: O anticoncepcional hormonal pode provocar a morte de seres humanos.

Não precisamos de muitos dados médicos para concluir o que os anticoncepcionais hormonais realmente fazem: eles agem no metabolismo feminino, tornando o corpo inapto a uma gravidez. Mas o corpo pode tornar-se inapto a uma gravidez de várias formas – no caso, três: através do impedimento da ovulação, da dificuldade do espermatozoide para chegar ao útero, ou da própria incapacidade do óvulo fecundado se prender à parede do útero. Isso mostra que não podemos confundir o fim (não gravidez) com o meio (alteração hormonal). A não ovulação é apenas um dos efeitos possíveis da alteração hormonal, e não o único decorrente dela.

Por isso, precisamos lembrar que só faremos uma análise ética responsável de uma tecnologia uma vez que entendamos o que realmente está sendo feito para se atingir um resultado. O contrário disso é pragmatismo – é como dizer que o governo de Hitler foi desejável pois reconstruiu a Alemanha pós-primeira guerra. A pessoa que toma o anticoncepcional hormonal não está simplesmente parando sua ovulação; e sim, alterando o seu metabolismo, sendo plenamente responsável por tudo o que decorre disso.

Se, então, os dados mostram que, ao alterar o metabolismo feminino, a parede uterina pode tornar-se incapaz de abrigar um óvulo fertilizado que, segundo as premissas acima é um ser humano, criado à imagem de Deus e cuja vida deve ser respeitada, então o anticoncepcional hormonal desrespeita a vida humana e pode provocar a morte de um ser humano.

Conclusão 2: A pessoa que utiliza o anticoncepcional hormonal, se consciente dos fatos acima, ou inconsciente de forma voluntária, é responsável pela morte que pode acontecer.

Sim, eu sei que muitas pessoas sequer sabem dos fatos apresentados acima, ou sequer pararam para pensar na possibilidade de que o anticoncepcional hormonal pode ser abortivo. Não creio que tais pessoas sejam culpadas pelas mortes. Afinal, se perguntaram para seus médicos se a pílula era abortiva, provavelmente ouviram um redondo "não" como resposta. Assim, a responsabilidade por essas mortes recai nos médicos — e não só a responsabilidade, mas também a ira de Deus por terem também mentido a seus pacientes, obscurecendo coisas muito óbvias com definições técnicas, distantes da realidade. Tais médicos têm que aprender a respeitar a opinião de alguém que considera um óvulo fecundado como um ser humano, e não omitir os detalhes, sob a pretensão de ser um especialista capaz de definir e impor às “massas ignorantes” o que é ele acha que seja a vida humana.

Mas não estou escrevendo só para acusar médicos ou informar quem não sabe. As pessoas que realmente me preocupam são as que não se importam com isso ou que, mesmo sabendo que a questão é complicada, pouco querem refletir sobre o assunto, lavam as mãos e optam pela solução mais cômoda, dizendo "ah, isso aí é bobagem, todo mundo usa, os médicos sabem do que falam". Por isso eu deixei claro que uma pessoa é responsável “se inconsciente de forma voluntária". Ou seja, a pessoa pode saber, ou pode não querer saber, ao entregar tudo para a responsabilidade do especialista, e não querer sair de sua zona de conforto.

3. Objeções ou Reclamações

Nesta seção vou responder algumas possíveis objeções ou reclamações ao que concluí acima. Falo de “reclamações” pois, apesar de ter tentado apresentar os argumentos de forma objetiva, também conheço muita gente que, assim como eu agi, simplesmente não quer ou não se sente confortável em mudar. Não acho que isso seja necessariamente “burro” ou irracional. Afinal, tomar uma decisão nesta área não é fácil, principalmente quando o que eu digo parece tão estranho e contra o senso comum, além de já ser raro de se ouvir. Eu mesmo tive que refletir se havia algo no meu coração que não me dispunha a aceitar certos fatos e talvez até aprender a ver que eles não eram tão horríveis quanto pareciam; ou seja, tive que me acostumar com algumas ideias e aprender a ver como elas se encaixam no restante da vida. Portanto, nesta seção, além de tentar responder algumas objeções mais lógicas, também pretendo lidar com objeções do coração, que chamei de “reclamações”, embora não necessariamente com um sentido ruim.

Reclamação 1: Eu não estou certo de que eliminar um óvulo fecundado seja o mesmo que matar um ser humano. É complicado. Vou continuar usando.

Ah, “é complicado”, né. Já citei esse tipo de atitude várias vezes no texto, mas é bom deixar isso claro de novo. Acredito que esse tipo de reclamação contraria um princípio ético muito básico com relação à incerteza. Seja sincero consigo mesmo: é melhor não fazer o que pode não ser errado, do que fazer o que pode ser errado. A não ser que você esteja plenamente certo de que pode eliminar óvulos fecundados sem pecar, ou de que o determinado anticoncepcional que você ou sua esposa usa nunca causa essa eliminação, você deve ser cuidadoso em suas decisões. Simplesmente dizer “é complicado” e continuar usando talvez revele sua falta de disposição para mudar por causa de uma comodidade. Sinceramente, eu não entendo como a comodidade de uma pílula pode ser mais importante do que a possibilidade de desrespeito à vida humana.

Reclamação 2: A ciência não é precisa, e muda com o tempo; por isso eu não me apoiaria nesses fatos apresentados sobre as anticoncepcionais hormonais.

Sim, a ciência não é precisa. Já comentei no Fato 3 que, como todos os medicamentos, sempre existe risco de algum prejuízo à saúde não previsto. Isso fica ainda mais óbvio diante da indústria farmacêutica, que chega até mesmo a criar doenças para vender mais. O fato é que a medicina e a farmacologia não são ciências tão exatas como esperamos, e não entendem o corpo humano de forma extensiva. Séculos de epistemologia não conseguiram provar que as ciências exatas são totalmente verificáveis – e nem acredito que vão fazer isso um dia, embora sempre predomine hoje a idolatria científica que crê que tudo o que “a Ciência diz” seja verdadeiro. Teorias são sempre revistas, corrigidas, ampliadas, ou até mesmo abandonadas. Novas evidências exigem novas explicações, pois o mundo é muito mais imprevisível do que nossos modelos teóricos.

Então diante desse fato alguém poderia dizer: "OK, portanto se a ciência não é precisa, deveríamos abrir mão de todos esses dados sobre o funcionamento dos anticoncepcionais e olhar só para os resultados, porque, quem sabe, a eliminação de óvulos fecundados sequer esteja acontecendo". Errado! O erro com esse tipo de raciocínio está no tratamento que ele dá ao "quem sabe?". Mais uma vez: se você não sabe se ao fazer algo está causando algum mal, não faça! Ademais, uma coisa é verdadeira: Deus nos faz responsáveis por aquilo que conhecemos, mesmo que esse conhecimento um dia se revele falso. Se um sequestrador está certo de que não vai matar sua vítima, mas diz para você que vai matá-la se você não depositar o dinheiro na conta dele, a sua obrigação é agir conforme o que você sabe e depositar o dinheiro. Você não sabe o que ele é capaz de fazer. Você não está em um jogo no qual você pode supor que os fatos estão blefando contra você, permitindo assim que você aja irresponsavelmente – principalmente se a questão envolve a vida do seu próximo.

Reclamação 3: A probabilidade de aborto é muito baixa. Deus não vai permitir que isso aconteça.

Se um avião tem probabilidade de 25% de ter pane e cair, você deixaria ele voar, confiando que Deus não vai permitir que isso aconteça? Randy Alcorn também ilustra: "crianças que brincam na estrada, sobem no telhado, ou são deixadas sozinhas nadando em piscinas não morrem sempre, mas isso não prova que tais práticas sejam seguras ou que nunca resultem em fatalidades. Nós veríamos imediatamente a inconsistência em alguém que argumentasse a favor de deixar crianças sozinhas na piscina porque conhece casos em que isso foi feito sem nenhum dano às crianças”. Nós não somos responsáveis só pelo que é certo, mas também pelo que é incerto.

Reclamação 4: Mas eu já ouvi falar que a mulher pode naturalmente eliminar óvulos fecundados, sem qualquer uso de hormônios.

Vamos reduzir isso ao absurdo usando analogias. Você dirigiria bêbado só porque acidentes acontecem, estando as pessoas bêbadas ou não? Estaria você autorizado a assassinar alguém só porque pessoas morrem naturalmente? Reflita nisso. Sim, eu sei que a mulher pode naturalmente eliminar óvulos fecundados, e às vezes até elimina fetos. São resultados da maldição decorrente da Queda. Mas há uma grande diferença entre fazer algo voluntariamente ou involuntariamente. A pessoa que decide é, obviamente, responsável.

Reclamação 5: Mas meu/minha ginecologista me receitou por outras questões de saúde.

Bem, se você é solteira e não realiza atos sexuais, obviamente você não provocará a morte de ninguém. Mas fique em alerta. Eu não sou médico, mas desconfio bastante desses tipos de tratamento que, no fim das contas, parecem tentar unir o útil ao agradável — no caso, o tratamento de alguma doença com a facilidade da contracepção. Se você não concorda com essa forma de contracepção, talvez fosse interessante procurar uma forma mais simples, e talvez até mais saudável, do que medicamentos como esses. Não me parece saudável, por exemplo, tentar tratar uma anemia “segurando” o ciclo menstrual com pílulas hormonais (algo que é bastante comum de vermos por aí). Soa como uma gambiarra médica. Mas como disse, não sou médico, e se você for solteira e realmente precisar de um tratamento desse, vá em frente.

Reclamação 6: Mas Deus criou o sexo não só para a procriação, e sim também para o prazer e comunhão do casal.

Não importa o que você pensa sobre sexo — quer você acha que deve, quer você acha que não deve dividir a procriação do prazer sexual, o uso de anticoncepcionais que promovem a morte de seres humanos não é aceitável! E supondo que todas as alternativas de contracepção existentes envolvessem o aborto, o casal deveria estar disposto a sacrificar qualquer possibilidade de planejamento para respeitar a vida humana.

Eu não acho que toda forma de planejamento de filhos seja errada, mas noto que este é um assunto com o qual às vezes falta um bom envolvimento dos evangélicos, e eu mesmo gostaria de ver argumentações mais profundas sobre o tema. Posições que negam o uso de controle de natalidade vão se basear na ideia de que um casal tem que confiar em Deus, enquanto que posições que o permitem se baseiam no fato de que Deus nos dá responsabilidade. Eu vejo mais sentido em argumentar pela segunda linha, mas ainda espero algum texto lidando com isso em mais detalhes.

Duas coisas porém, precisam ser notadas para o nosso presente propósito. A primeira é que é verdade que Deus criou o sexo não só para a procriação, mas de fato ele criou para a procriação e viu que isso era muito bom. Se você não enxerga filhos como bênçãos e, pelo contrário, os associa a problemas, você está sendo ingrato e pecando contra Deus. Vivemos em tempos de uma mentalidade contraceptiva, que certamente decorre de comodismo e falta de confiança em Deus para prover os recursos necessários (Mary Pride, por exemplo, faz uma excelente análise no capítulo “Who Is Afraid of the Big Bad Baby”, em seu livro “The Way Home”). Hoje em dia são raros os casais que entendem que o casamento envolve também um chamado para a procriação e educação de filhos, e que muitas vezes faz parte do plano de Deus nos surpreender com uma gravidez inesperada, frustrando os nossos planos como os de dedicar nossas vidas ao prestígio, dinheiro, ação social, ministérios cristãos, ou quaisquer outras coisas que não a criação de filhos para a sua glória.

Hoje em dia muitos casais topam qualquer coisa para evitar filhos. Se trocar um método por outro sobe a probabilidade de contracepção de 99,8% para 99,9%, ele certamente é trocado, não importando o preço a se pagar por isso. Afinal, essa é a mentalidade tecnicista: queremos ter pleno controle sobre as nossas vidas. O que acontece, no fim, é que a sociedade acaba sendo totalmente configurada para desencorajar a criação de filhos. Você provavelmente conhece histórias de empresas que demitiram funcionários que tiveram filhos, ou já percebeu que, no mercado de trabalho de hoje, sempre é mais valorizado o jovem yuppie que não tem compromisso com nada senão com a empresa – sem família, e que sempre topa ganhar umas horas extras ou marcar uma viagem para outro país no dia seguinte, onde vai passar três meses trabalhando doze horas por dia e curtindo baladas nas horas vagas. Enfim, é diante disso que muitas pessoas chegam até mesmo a se convencer de que ter filhos é algo totalmente fora de cogitação. São várias as pessoas que conheço que, diante das imposições modernas, e da sua não disposição de tomarem a cruz e sacrificarem-se a si mesmas em prol das finalidades maiores do Reino, se convencem plenamente de que não há outra alternativa possível. "Não, você não pode ter tantos filhos assim! Como você vai sustentar tanta gente?". "Não, você tem que arrumar um emprego em São Paulo, não tem escolha". "Não, você tem que assistir uma televisãozinha à noite pra dar uma relaxada". Sempre me pergunto: "como assim, eu tenho?".

A segunda coisa a ser notada é que ao contrário do que alguns evangélicos parecem crer, a prática de abstinência temporária e o exercício do autocontrole no sexo não é pecaminosa. Alguns vão a 1Coríntios 7.5, que diz "não vos priveis um ao outro, salvo talvez por mútuo consentimento, por algum tempo, para vos dedicardes à oração e, novamente, vos ajuntardes, para que Satanás não vos tente por causa da incontinência". Sim, segundo o texto, é verdade que o sexo é uma forma de serviço, e o marido ou a esposa que o negam estão desobedecendo a Deus. Mas Paulo abre exceções – no caso, a oração. E vamos concordar que os casais tem negado o sexo por qualquer motivo hoje – sono, cansaço, afazeres, programas de TV, e até mesmo por brigas e ressentimento. Oração, porém, seria um dos últimos motivos para isso.

Temos que tomar cuidado para não concluir mais do que o texto diz. Ele apenas diz: “maridos e esposas, sirvam uns aos outros através do sexo, e cuidado com a abstinência sexual, para que vocês não sejam tentados”. Mas ele não diz: “sexo é um requisito insubstituível para um bom relacionamento entre marido e mulher e o único remédio contra a lascívia”, e muito menos “os casais devem fazer sexo sempre que tiverem desejo”.

Mas, de fato, os métodos de abstinência temporária não são a única alternativa ao métodos hormonais – há também a classe métodos de barreira (preservativos, diafragma, espermicidas e coito interrompido). Na visão de alguns católicos, os métodos são inaceitáveis devido a uma interpretação da história de Onã, que foi morto por Deus por derramar o sêmen no chão em suas relações com Tamar. Creio que a interpretação vai muito além da mensagem do texto, e Mark Liederbach, comentando sobre isso em “Deus, Casamento e Família”, diz: "Ao examinarmos melhor a passagem, porém, temos a impressão de que o desprazer do Senhor em Gênesis 38.10 não deve ser associado diretamente à prevenção da gravidez, mas sim, ao modo particularmente explorador, abusivo e desperdiçador como Onã se relacionava sexualmente com Tamar" (p. 131).

Isso leva à minha posição (até o presente): não acho que a Bíblia proíbe métodos de barreira. Mas cuidado: se isso estiver te levando a idolatrar o sexo, e tratar seu cônjuge como um objeto de prazer e não uma pessoa, pare! Eu ainda pretendo escrever um texto lidando com alguns aspectos da contracepção em mais detalhes, mas por ora creio ser importante mostrar que a alternativa da abstinência – como tabela e método Billings – não é pecaminosa. Acho importante argumentar contra uma certa mentalidade de “sexo picante” que tem transformados os casais em verdadeiros idólatras sexuais. Em muitos casos penso que uma abstinência temporária seja melhor para a vida do casal do que os precedentes que certos métodos abrem para excessos e descontrole do corpo. Consentir com o cônjuge a parar o sexo por um tempo determinado para se dedicar a oração pode ser uma forma de glorificar a Deus, além de permitir planejar o momento dos filhos.

Reclamação 7: Mas o que fazemos então com todos esses problemas de gente que tem filhos e não tem condições para criar? Vamos negar um anticoncepcional a essa pessoa?

Ou, como já ouvi alguém me dizer: "os benefícios do anticoncepcional são bem maiores que os riscos de uma gestação não planejada". Ora, esse argumento é o mesmo usado no discurso pró-aborto! O maior problema com ele é que ele enxerga o aborto como uma questão social (de "saúde pública"), antes do que uma questão moral. Não! O cristão não pode concordar com isso. Existem, sim, valores morais universais, prescritos por Deus, e que transcendem qualquer estrutura e valores sociais. Importa que o homem antes obedeça à lei imutável de Deus, do que procure encontrar, por si mesmo, formas de "fazer a sociedade funcionar" ou garantir o “bem-estar social” de acordo com o que ele entende.

Infelizmente, argumentos assim são muito comuns na nossa era tecnicista, ávida por autonomia em relação às prescrições divinas, e que acha que sabe como "resolver as coisas". Repare no apelo emocional: "é para o bem das mulheres, para o bem das famílias, para o bem da sociedade". Mas a Bíblia diz: "ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!" (Is 5.20). Só não é para o bem dos seres humanos que estão sendo mortos, não?

Conclusão: o que fazer?

Não sei se este texto foi capaz de te convencer. Se não, estou aberto a ouvi-lo; mas se sim, ou se pelo menos o deixou com mais dúvidas, meu primeiro conselho é: ore e medite sobre isso. Um dos motivos pelos quais escrevi este texto foi para compartilhar muitas dúvidas e reflexões que eu e minha esposa tivemos até percebermos a necessidade de pararmos de usar o anticoncepcional hormonal. Não foi fácil para nós, porque ainda não tínhamos muitas das respostas que apresentei aqui (tanto às objeções lógicas como às reclamações do coração); portanto, espero que isso facilite sua decisão. Mas meu tratamento ainda está longe de ser abrangente, e pode não ter muito a ver com o seu caso. Por isso, ore e medite, reconhecendo também que qualquer conclusão não vem por mero esforço intelectual, mas por graça de Deus, colocando em nós o amor pela virtude e o desejo de agradá-lo em tudo o que fizermos, apesar das circunstâncias. Confie na sua graça!

Mas outro conselho que dou é: não adie sua decisão. Lembre-se do que falei no início: é melhor não fazer o que pode não ser errado, do que fazer o que pode ser errado. Como já disse, pode ser que tudo o que disse aqui se revele como falso, dadas algumas descobertas científicas (do que eu duvido). Eu e minha esposa, assim que começamos a ter dúvidas, paramos com o anticoncepcional hormonal; e até poderia ser que descobríssemos depois que tudo o que vimos fosse mentira (mas não descobrimos; pelo contrário, só tivemos mais certeza). Mas qual seria o problema se fosse mentira? Temos que agir com base no que sabemos, deixando de pragmatismo e comodismo e nos dispondo a tomar a cruz quando necessário. Eu não sei quanto a você, mas na minha opinião, a questão da morte de um ser humano é muito mais importante do que qualquer justificativa apelando para a saúde da mulher, a bênção do ato conjugal ou mesmo a possibilidade de “estragar” sua noite de núpcias (por alguma necessidade de abstinência). Reconheça os valores que estão em jogo aqui.

E sinceramente, posso estar exagerando ao dizer que não usar um anticoncepcional hormonal é "tomar uma cruz". Existem métodos anticoncepcionais naturais que são extremamente simples. Não pretendo apresentá-los aqui, mas o leitor interessado pode procurar e se informar melhor. Apenas comento que eu e minha esposa utilizamos o Método Billings, devido à sua simplicidade, eficiência, respeito para com o corpo feminino e incentivo à comunicação e união do casal. Os católicos promovem bastante esse método e (gratuitamente) orientam muito bem os casais interessados acerca da sua utilização, seja para noivos que estão se preparando para casar, seja para mulheres que estão abandonando a pílula (que precisam de um cuidado especial, para "desintoxicar" o corpo). Randy Alcorn oferece na página de seu livro alguns links sobre métodos naturais - http://www.epm.org/resources/2010/Mar/22/links-natural-family-planning/, mas o leitor também pode facilmente encontrar material em português e pessoas que entendem do assunto. E caso você se interesse pelo Billings, apenas mais um conselho: procure alguém que forneça um acompanhamento e aconselhe o casal quanto ao método. Eu e minha esposa também estamos à disposição para ajudá-lo, apesar de um contato pessoal ser mais desejável.

Espero ter quebrado o silêncio e contribuído com a discussão de alguma forma.

Soli Deo Gloria!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Traduções, Tuporém e o Futuro do Blog

Sim, o blog está bem parado. Hoje é dia 26 de junho de 2015, e a última postagem foi em 7 de novembro de 2014. Quando pensei em escrever pouca coisa em grandes intervalos de tempo, não pensei que acabaria nesse ponto. Mas para que a culpa não seja toda minha, também não poderia deixar de notar que parece que nesses últimos tempos a cultura de blogs tem perdido sua força. Não sei explicar o porquê com certeza, mas muitas vezes temo que isso se deva a termos nos acostumado com os comentários curtos e rápidos pelo Facebook, e que qualquer coisa maior do que isso já seria matéria para um texto grande que não vale a pena ser escrito ou lido.

Bem, mas nem tudo está perdido. Já faz um tempo que gostaria de ter divulgado aqui que tenho traduzido alguns textos para o blog do Tuporém. Foi uma parceria bacana que começamos com o Jonathan Silveira, além de uma forma de manter um blog com uma frequência maior de textos sendo publicados. Quem quiser pode dar uma olhada nas traduções minhas – todas relacionadas aos temas de ciência, tecnologia e cristianismo –, mas recomendo também todas as outras, relacionadas a outros temas. É um ministério que realmente tem se dedicado a fornecer bom material nas áreas de apologética, teologia e vida cristã (http://tuporem.org.br/visao-e-fe/).

Seguem minhas recentes traduções, todas de textos que recomendo muito a leitura!
Gostaria de dizer que também vale a pena dar uma olhada no trabalho do Breno Perdigão, outro irmão em Cristo que tem se dedicado a traduzir, estudar, escrever e divulgar bom material sobre cristianismo e tecnologia. Seu blog chama-se "Deus e o Engenheiro" (http://deuseoengenheiro.blogspot.com.br/), e ele também traduziu alguns textos para o Tuporém: "Tecnologia, revolta de robôs e o coração", por Derek Schuurman (http://tuporem.org.br/tecnologia-revolta-de-robos-e-o-coracao/) e "O que Deus tem a ver com a matemática?", por Vern S. Poythress (http://tuporem.org.br/o-que-deus-tem-a-ver-com-a-matematica/).

Mas, enfim, e este blog? Como fica?

Bem, ainda não desisti dele. Embora várias traduções e mesmo textos meus estejam indo para o Tuporém, resolvi guardar o blog para assuntos bem mais específicos e opiniões pessoais que creio que não se encaixariam muito bem em um blog dedicado a um público geral. O leitor entenderá isso melhor quando ver o tema de um próximo texto que estou preparando, e pretendo postar em breve. Certamente a frequência de textos ficará muito baixa (como se já não estivesse...), mas o que basta para mim é ter um espaço para, de vez em quando, poder publicar algum texto maior e menos transitório do que uma postagem de Facebook. Ah, quanto eu temo que nos moldemos demais a ele...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Reflexões em “A Técnica” de Jacques Ellul, parte 1


Tendo lido recentemente a importante obra de Jacques Ellul, A Técnica e o Desafio do Século [1], resolvi começar uma série no blog apresentando e comentando muitas ideias (muitas mesmo!) que encontrei no livro. No entanto, antes de começar, também gostaria de fazer alguns breves comentários sobre o livro. De fato, A Técnica e o Desafio do Século pode ser considerado um dos mais importantes livros da segunda metade do século XX, conforme diz Robert Theobald no endosso da versão em inglês publicada pela Vintage Books. O livro tem reflexões muito profundas e originais sobre a natureza da técnica e o caráter da sociedade tecnológica, introduzindo variáveis que quase nunca são consideradas nas discussões atuais sobre economia, política e cultura. E sem dúvida, pessoalmente, o livro foi também um marco em minha vida. Vale a pena escrever uma série de posts sobre suas ideias!

Mas bem, Ellul tem seus problemas. Seu pessimismo é uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que mostra que as coisas não são tão simples quanto parecem no tema da tecnologia, também demonstram uma desconfiança excessiva para com toda invenção humana para a solução de problemas. Sua influência marxista e historicista também é bastante notável (embora ele não se declare um) – Jacques Ellul, ao lado de Lewis Mumford, pertence a uma linha de pensamento chamada determinismo tecnológico, que é nada mais que uma vertente do historicismo que enxerga o estado da sociedade atual como dependendo unicamente do desenvolvimento tecnológico [2].

Apesar disso, repito: o livro tem reflexões muito profundas e é indispensável para quem quer estudar tecnologia. São discussões e críticas fazem falta nos dias de hoje, e que sem dúvida são muito mais razoáveis do que qualquer discurso marxista moderno. Jacques Ellul é anarquista e percebe acertadamente que, se a organização empresarial capitalista atual já não é boa, tanto menos será o Estado totalitário, uma vez que consiste na pretensão humana de controlar e curvar a realidade à sua vontade através do exercício da técnica (seja ela científica, seja organizacional) [3]. Enfim, se é que o leitor conhece um pouco da filosofia de Dooyeweerd acerca do reducionismo dos aspectos e a idolatria, perceberá que Jacques Ellul apresenta aspectos reais e importantíssimos da realidade técnica moderna; mas que, no entanto, não resumem toda essa realidade. Assim, faremos bom proveito de seu livro se percebermos que suas ideias são boas, mas não são tudo. São ideias geniais e profundas, mas não consistem na razão de ser do Universo. Temos que tomar cuidado com o reducionismo e a idolatria.

Posso dar um exemplo do que estou dizendo. Ellul às vezes generaliza o fato de que certas técnicas hoje existem apenas para fazer o mundo técnico insuportável e hostil ao homem algo suportável [4]; incluindo nisso a educação, a orientação vocacional, a psicanálise, a medicina, o entretenimento, o consumismo, a propaganda e até o esporte. Não vamos negar: que constatação poderosa é essa! Ela é profundamente teológica: o homem cria ídolos para conseguir derivar o sentido de sua existência em uma realidade que ele mesmo quis criar para si, e que, inevitavelmente, não será a melhor para ele. Jacques Ellul faz uma magistral acusação da idolatria moderna presente nessas áreas, e como nós automaticamente nos colocamos a servir a esses ídolos, tornando-nos escravos deles, sem perceber que, ao fazer isso, estamos abandonando a realidade primária para a qual fomos criados. O soma huxleyano nunca foi tão presente em nossa sociedade! Afinal, você já parou para pensar no motivo do Globo Esporte passar no horário em que paramos nossas atividades corridas do dia a dia e temos um pequeno tempo para “pensar na vida” enquanto comemos? Mas não... o que fazemos é ligar a televisão e obter um pouquinho mais de sentido para nossas vidas nos confortando com o gol do Neymar!

No entanto, cuidado com a generalização. Será que todo artifício humano hoje tem sido uma negação de responsabilidade e tentativa de distração e adaptação em um mundo que não deveria ser o que é? Ou, ainda mais: será que parte disso não seria uma própria operação da graça de Deus nos homens, chamando-os atenção às coisas gloriosas do universo ao invés de uma tentativa fútil de resolver seus problemas por nossas próprias forças?

Confesso que sou muito tentado a resumir todo o entretenimento moderno ao escapismo, e tenho bastante pena de quem diz: “vou fazer o quê, isso aqui é o que eu tenho e não tenho outra escolha”. Mas tenho que concordar que, nesse tipo de comentário, há uma complexa mistura de uma negação de responsabilidade e uma real inevitabilidade da situação; uma mistura que não é simples de entender. É bastante verdade que a sociedade tecnológica atual tem negado a iniciativa, personalidade e criatividade humana ao tornar tanto o trabalho como o entretenimento algo racionalizado e “terceirizado”, e, diante disso, as pessoas perdem a noção de que estão no trabalho que estão porque querem, que ficam o dia inteiro no computador porque querem, e que assistem o Globo Esporte na hora do almoço porque querem. Infelizmente, essa é a influência do tecnicismo até na consciência das pessoas: tornar decisões livres e responsáveis em decisões de necessidade técnica. A sociedade técnica, aliás, penaliza e ameaça as decisões livres – ninguém quer se expor ao perigo de não ter o que trabalho que aparentemente precisa, de não ficar na frente do computador que aparentemente precisa, de se utilizar do entretenimento do esporte que aparentemente precisa.

Mas então o outro lado da história surge, querendo dizer algo: será que não poderíamos deixar de enxergar tais coisas como necessidade, e as enxergássemos como bênção? Ellul parece não considerar tal hipótese, devido ao historicismo que o leva a enxergar toda a realidade atual como artificial e hostil ao homem. Ir ao cinema no fim de semana pode ser muito proveitoso se nos lembrarmos daquela distinção que Tolkien faz entre recuperação e escapismo, que já expliquei neste post. As imagens que recebemos através da mídia e das técnicas modernas nem sempre são formas de sair de nossa realidade e ir para outra, mas também podem ser formas de trazer outra realidade para a nossa. É verdade que isso quase nunca ocorre e, de fato, grande parte do entretenimento hoje é feito para dificultar nosso exercício de criatividade. Ainda estamos muito longe de buscarmos uma integração daquilo que se nos apresenta através de imagens com as nossas realidades imediatas e cotidianas; e isso talvez porque estamos contentes demais com as superproduções artísticas e culturais que nunca poderíamos fazer sozinho e trabalhando oito horas por dia. No entanto, isso nos levaria a desprezar qualquer empreendimento voltado para o prazer humano, entendendo-o sempre como uma forma de escapismo? Creio que não.

Tais reflexões ainda precisam ser bastante exploradas e aprofundadas; o que, com a graça de Deus, tentarei fazer posteriormente (não nesta série). No momento, porém, estou apenas me limitando a apresentar os argumentos de Jacques Ellul, e nos próximos textos, apresentarei mais alguns comentários sobre a forma como ele enxerga o entretenimento e a política estatal. Comentários e discussões sobre o tema são sempre bem-vindos nos comentários do blog!

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[1] Este é o nome dado à tradução em língua portuguesa do livro, por Roland Corbisier, publicada pela editora Paz e Terra em 1968. O livro, infelizmente, não foi mais publicado desde então. A leitura que fiz, portanto, é da tradução em inglês, intitulada The Technological Society, por John Wilkinson (Vintage Books, 1967).
[3] A definição que ele faz de sua posição política é curiosa: um liberalismo não-capitalista. Mas estou sem tempo para procurar a página do livro onde ele diz isso, e aproveito a liberdade do blog para não colocar... se alguém souber, me ajude, hehe... E embora eu não me declare assim, é interessante observar que o anarquismo de Ellul está longe de se encaixar espectro político usual de direita/esquerda. Para uma discussão mais profunda sobre isso, confira o artigo de André Venâncio, Armadilhas do Vocabulário Político: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=397
[4] Jacques Ellul, The Technological Society (Vintage Books, 1967), p. 322.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Comentários sobre o artigo de Derek C. Schuuman: Formando uma Visão Cristã da Tecnologia Computacional

Já faz quase um ano que me propus a traduzir este artigo escrito por Derek C. Schuurman sobre cosmovisão cristã e computação. É um artigo com conceitos básicos e que pode ajudar bastantes cristãos nessa área. Ele foi publicado no site da ACMS (Association for Christians in the Mathematical Sciences) e pode ser distribuído gratuitamente: http://www.acmsonline.org/journal/2007/Schuurman.htm

No entanto, à medida que fui estudando e refletindo sobre alguns temas levantados no artigo, percebi que algumas ideias presentes nele são realmente PERIGOSAS. Com isso não quero dizer que o artigo é de todo inútil - na verdade é um artigo importante, uma vez que poucos hoje se dispoem a escrever sobre isso -, no entanto, exige uma postura de cuidado por parte de quem lê.

Assim, resolvi publicar o artigo no blog com alguns comentários mues, principalmente nos trechos mais "complicados". O leitor também está convidado a refletir e argumentar sobre esses pontos comigo!

Boa leitura!

(Clique neste link abaixo...)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Avisos e Informações

Após um grande tempo sem postar, venho avisar: o blog não está abandonado! O motivo da falta de textos aqui vocês entenderão daqui a um tempo... estou trabalhando em alguns planos, e por ora, só digo que não parei de escrever sobre Tecnologia e Redenção. Aguardem!

Mas para não dizer que não tenho feito nada no blog, preparei para os leitores uma lista de materiais (livros, artigos e textos em geral) sobre os assuntos que tenho lidado (e pretendo ainda lidar) neste blog. Está ali na barra lateral do blog, na seção "Recursos", ou também aqui, neste link. Tive a "cara-de-pau" de incluir ali bastante material que não li... mas, que seja; quem sabe os próprios leitores já não vão adiantando umas leituras por mim, e comentam comigo o que acharam :-). E inclusive esse é outro motivo pelo qual não tenho postado muito: estou lendo muitos livros sobre o tema. Garanto que muita coisa que aprendido e refletido será compartilhada aqui, com o tempo.

Por fim, uma notícia boa para quem se interessa por ciência, tecnologia e religião e está livre nos dias 9-12 de outubro de 2014. Teremos, em São Paulo, o curso Faraday-Kuyper, realizado pelo Faraday Institute of Science and Religion e a AKET - Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares, que reunirá palestrantes nacionais e internacionais em 12 palestras em diversos temas de interesse na área de ciência, tecnologia e religião. Não poderia deixar de dar destaque para a palestra do professor Gustavo Assi, "Technology and Christian Hope", no dia 11. É imperdível! Mais informações em:

sábado, 8 de março de 2014

Criação e artificialidade: confusões e cuidados...

Não foram poucas as vezes em que senti falta, nos estudos em cosmovisão reformada, de um tratamento adequado à artificialidade. Não sei se é porque não tive muito contato com material reformado que lide com isso, ou se realmente é uma área carente de estudos. De qualquer forma, o que já li até agora não foi profundo como gostaria que fosse. Às vezes desconfio que nós, reformados, temos uma noções bastante desenvolvida sobre a criação, a revelação geral e a graça comum, mas por outro lado, talvez pouco seja falado sobre o status e significado da atividade criativa humana. Quase todas as vezes em que me deparei com algo neste rumo, vi somente ligações simplórias e injustificadas entre a criação humana e a criação de Deus. Lembro-me que uma pergunta que sempre me intrigou, desde a adolescência, é: Deus criou o computador? E embora já tenha visto respostas interessantes para isso (e com certeza vou falar delas algum dia), o que vejo na prática são muitas confusões conceituais. É verdade que, em muitos aspectos, nós podemos aplicar alguns conceitos da criação de Deus à criação humana - pois fomos criados à sua imagem e semelhança, porém, em vários aspectos nós não podemos. E, para isso, sinto que falta-nos um critério explícito e adequado.

Eu ainda não tenho uma opinião formada sobre os argumentos de Jacques Ellul, mas tenho que dizer que, às vezes, toda a sua animosidade e pessimismo para com a tecnologia pode fazer mais bem para nós do que uma visão triunfalista, injustificada, que vejo em certos reformados. Não que eu não seja contra a tecnologia, mas creio que não é tão simples dizer que ela sempre faz parte da criação de Deus, e, portanto, é boa. Sim, Albert M. Wolters pede que façamos a distinção entre estrutura e direção - Deus cria a estrutura, que é boa, e o homem dá a direção, que pode ser a glória de Deus ou o pecado. Mas como distinguir essas coisas na tecnologia? Dizer o que é estrutura e o que é direção na artificialidade não é algo simples, nem arbitrário. Qualquer obra humana que tenhamos em vista não é neutra, e apresenta tendências em direção a certos usos ou direções segundo o coração dos homens; nelas, nossos desejos são refletidos. Como disceni-los?

Vejam bem, a questão não é irrelevante. Penso que confusões acerca da artificialidade também nos levam a muitas confusões na nossa visão de progresso tecnológico, vida cristã e escatologia. A controvérsia está muito bem estabelecida entre os cristãos: enquanto alguns como Ellul e C. S. Lewis atacam violentamente a ideia de "conquista da Natureza pelo Homem", outros, principalmente reformados - e aqui talvez valha a pena citar nomes, para alertar os desavisados: Andrew Basden, Derek C. Schuurman, Nicholas Wolterstorff, e vários dooyeweerdianos - enxergam a tecnologia como uma forma de "aliviar os resultados da Queda", ou até mesmo, "operar a redenção de Cristo". Essa última posição é facilmente derivável da teologia da missão integral (TMI), e embora eu precise deixar para fazer considerações sobre isso em outra ocasião, eu já adianto: não vejo qualquer argumento bíblico apoiando essas ideias. Admiro, sim, o tratamento que o neo-calvinismo deu às questões de uma integralidade na vida cristã, uma teologia do reino, e a necessidade de transformarmos a cultura (embora várias interpretações sejam dadas a isso), mas sustento deveríamos ser muito cuidadosos para não cair em um ativismo, ou moralismo, ou uma confiança na obra humana como forma de justificação, santificação ou mesmo um "agradar a Deus" (coisas que não se separam em Cristo).

Embora eu entenda que as obras humanas certamente ajudam e dão esperança aos homens, curando doenças, dando acesso à informação, ou tantos outros benefícios - pelos quais devemos ser muito gratos a Deus -, tenho a impressão de que enxergar tudo isso como uma forma de "aliviar os efeitos da Queda" é muita pretensão. Minha melhor definição para as obras humanas é o que a teologia reformada define como graça comum; e tenho dúvidas se esta última existe para aliviar resultados da Queda. Afinal, qual resultado da Queda poderia ser maior do que o próprio afastamento de Deus e de seu gozo eterno? Será que temos enxergado os efeitos da Queda apenas em função das coisas terrenas? Imagino que, pensando assim, corremos de fazer tecnologia para afastar o homem cada vez mais de Deus. E esta é a crítica de tantos autores como Ellul e C. S. Lewis. Qual seria a diferença entre uma tecnologia autônoma e uma teorreferente? A tecnologia coloca bastante poder nas mãos humanas. E por que colocar mais poder e domínio nas mãos de homens pecadores? Será que não deveríamos reconhecer o poder e domínio que já está nas mãos do próprio Filho do Homem?

Me preocupa bastante também a expressão "operar e redenção de Cristo". Mesmo Colossenses 1.17, que está transcrito na barra direita do blog, não fala de nenhuma responsabilidade nossa em fazer as coisas convergirem em Cristo. Talvez eu já até tenha caído nesse erro em textos anteriores do blog (uma prova de que eu também mudo de opinião). Mas hoje digo: nossa tarefa deveria ser apenas testemunhar e anunciar esta convergência. Existe uma diferença enorme entre "fazer convergir" e "anunciar a convergência"; uma diferença tão grande que deveria dizer se realmente estamos vivendo por fé ou por obras.

Mas vou dar exemplos mais específicos sobre confusões que encontro quando certos autores lidam com artificialidade. No livro "Shaping a Digital World", de Derek C. Schuurman, encontrei muitas associações estranhas entre textos bíblicos e certas realidades da tecnologia. Eu admiro o tratamento que muitos reformados - principalmente Cornelius Van Til e Herman Dooyeweerd - deram ao texto de Gênesis 1-3 para a formação de uma cosmovisão cristã, e realmente ali nós encontramos bases muito profundas para nossas visões de Criação, Queda, Redenção e Consumação. Mas deveríamos tomar cuidado para não enxergar nesta história da criação e queda várias alegorias para os assuntos atuais - ou, em outras palavras, as associações não deveriam ser feitas arbitrariamente. Derek C. Schuurman, por exemplo, afirma que a tarefa que Deus deu ao homem de dar nome aos animais é uma tarefa que, na área da computação, é o inventar nomenclaturas para hardwaresoftware e padrões de projeto. Ou seja, assim como Adão recebeu a tarefa de colocar nomes nos leões, bois e cachorros, Schuurman diz que Adão também recebeu a tarefa colocar nomes nas Unidade Lógico-Aritmética, Programação Orientada a Objetos, Otimização por Enxame de Partículas. O quê? Como assim? Eu não sei dizer até que ponto dizer isso é válido ou não, mas sem dúvida muitas coisas não ficaram claras aqui. De que forma podemos associar o dar nomes a uma criação direta de Deus, ao dar nomes aos frutos de nossa imaginação e abstração? Eu concordo que Deus criou a lógica, a matemática e várias outras coisas que podemos enxergar apenas em nossos pensamentos. Mas como fazer essa associação?

O próprio Schuurman comenta, logo após, que tudo isso nos leva à questão da dificuldade do jargão, principalmente na área de computação, e da abstração sem limites, nos afundando em teoria e nos afastando da realidade. E eu, particularmente, não vejo muito da diversão de Adão, que teve que dar nome aos animais, nos títulos escabrosos que vemos em certos trabalhos científicos como os de hoje... Este problema fica em aberto no livro; e não é algo pouco importante e que deveria ser deixado de lado; pois a ideia é citada como um conselho e motivação aos cristãos para inventar quaisquer nomenclaturas e pensar que estão simplesmente fazendo o que Adão recebeu a tarefa de fazer. Isso é perigoso! O próprio Caim fundou uma cidade (repare na artificialidade) e deu um nome a ela (Gn 4.17) - e embora a Bíblia não afirme explicitamente que o dar esse nome seja um pecado, isso deveria levantar reflexão, já que a ordem de Deus era que ele andasse errante pela terra, e ele a desobedece. Junta-se a isso o fato de que a própria ideia de "mandato cultural" é bastante vaga em muitos discursos dos reformados, e deveria ser avaliada mais à luz da Queda e Redenção (lembre-se de que ela foi dada antes do pecado de Adão).

Outro exemplo de associação injustificada entre a criação de Deus e a criação humana ocorre quando o autor associa os cardos e abrolhos que a terra produz aos "bugs de computador" e falhas de projeto. É verdade que ambas as coisas são enfadonhas. Mas por que associar uma coisa à outra? Se o bug de computador realmente ocorresse por causa do "bug" original, ou seja, aquela mariposa que foi esmagada nos relés do computador Harvard Mark II, talvez este pensamento fizesse sentido. Mas às vezes nós erramos simplesmente por falha humana: esquecemos do ponto-e-vírgula no código, erramos o cálculo, esquecemos de ligar a tomada. Tudo bem que a questão pode ficar muito mais profunda: alguns até poderiam dizer que a mariposa no relé seja uma falha, afinal, "quem deixou a mariposa entrar"? Ou talvez "quem foi que contratou esse mané para fazer este projeto"? Vejam que a questão do erro humano é crucial nas discussões sobre artificialidade. Há quem trabalhe hoje vinte e quatro horas e sete dias por semana apenas para consertar erros. Não só isso, mas também no empenho de eliminar estes erros, toda a humanidade está sempre tomando providências, e providências que nunca acabam! É até de se notar o peso que se cria em volta disso: "estude mais, trabalhe mais, reflita mais, mais, mais, mais!" A obra humana não tem fim, talvez por causa de duas coisas: o nosso pecado, e o julgamento do nosso pecado. Mas é aqui que a questão também complica: se o julgamento são os cardos e abrolhos, seriam as nossas falhas pecado? Afinal, "errar não é humano"? E enfim: por que falhamos? Por que, de vez em quando, qualquer um pode escorregar e levar um tombo? Isso seria pecado? Certamente não, porém,  essas perguntas nos levam a um ponto importantíssimo e pouco explorado na teologia reformada: qual a relação entre a Queda e as falhas humanas?

Felizmente, pela graça de Deus, eu encontrei e pude chegar a ler o próprio Abraham Kuyper falando sobre isso. Kuyper faz algumas reflexões bastante pertinentes sobre o enfado pós-queda e a atividade científica e tecnológica em uma compilação de seus escritos sobre graça comum, intitulada "Wisdom & Wonder". Mas isso ficará para um próximo texto. O que resta citar é que o próprio Derek C. Schuurman questiona essa interpretação do erro como "cardos e abrolhos", ao dizer:

"(...) a complexidade inerente na programação de computadores é possivelmente uma parte da criação, e não é um resultado da Queda. Do mesmo modo, o processo iterativo no qual programas de computador são escritos, testados e atualizados podem ser apenas coisas intrínsecas à atividade de programação de computadores. Seria o conserto de erros simplesmente uma parte da atividade de escrever programas complexos, ou seria isso um resultado da Queda? Isso é difícil de discernir. De qualquer forma, pode-se dizer que o trabalho penoso e as consequências perigosas dos bugs e projetos computacionais falhos são certamente um resultado da Queda" (p. 69).

Cito este trecho pois Schuurman percebe um ponto crucial na artificialidade: ela pode atingir níveis de complexidade tão altos, a ponto de se tornar uma coisa descontrolada e confusa. Não sei se a complexidade presente na artificialidade poderia ser "possivelmente uma parte da criação", embora certamente ela siga leis criacionais (um erro de computador não é um erro na criação, é simplesmente algo que funciona de uma forma diferente daquela que desejamos). Mas então chegamos ao ponto: isso não seria o próprio caso da história da torre de Babel? Isso não é o que já disse neste post, sobre ética, onde ressaltei que o mundo hoje anda tão interligado e interdependente que é difícil dizer quem é responsável pelo quê, ou mesmo como devemos agir diante de certas situações onde não temos o menor controle? Isso se tornou tão crítico hoje que a própria ciência já tem seus termos: ciências da complexidade, teoria do caos, análise não-linear, etc. Mas, bem, isso exigiria vários outros textos (que virão, se Deus quiser).

Infelizmente, eu não só diria que as coisas estão complexas nos projetos tecnológicos em si, mas na própria atividade de discernir os pressupostos presentes em cada tecnologia. Tudo hoje é "justificável"; fazemos isso para possibilitar aquilo, para possibilitar aquele outro, e assim infinitamente, numa complexidade que nos faz, muitas vezes, perder a noção da realidade. O consolo muitas vezes vem da abstração, das interfaces padronizadas, do "general-purpose" - gastamos todo o tempo e esforço em cima atividades extremamente específicas, e para dizer que não perdemos tempo, escrevemos uma boa documentação e registramos o "aprendizado" em blogs e relatórios técnicos (ou o famoso StackOverflow), aconselhando as pessoas a não passarem de novo pelo que passamos. Afinal, temos horror à repetição, ainda mais em um mundo onde tudo é automatizado. Vejam bem, estou escrevendo isso para mostrar que a artificialidade nos escraviza, e na maioria das vezes é difícil saber como, por causa da extensão e da complexidade presente nela. Sem contar o fato óbvio de que hoje os jovens se formam em cursos de computação e engenharia e raramente têm uma noção do significado do que fazem frente ao serviço à sociedade e glória de Deus - o que vêem é apenas coisas que satisfazem seus próprios desejo de controle e "domínio do Homem sobre a Natureza". Nenhum pressuposto é explorado, nenhum coração é consultado, e muito menos a criatividade à favor do louvor a Deus é ressaltada. Tudo é documentação, tutoriais e Google. Já disse Edith Schaeffer: o universo impessoal das obras humanas é um que não produz uma base para a criatividade ("The Hidden Art of Homemaking, p. 178).

O leitor pode me julgar pessimista e reclamão, mas interprete isso como alguém que não sabe o que pensar, o que falar e o que fazer diante de situações tão complexas como estas. Como eu queria que fosse equivocada essa impressão de que a maioria cientistas e engenheiros não estão pensando no que deveriam pensar. Só que ainda não vi nenhum bom argumento para me convencer disso. A impressão que tenho, hoje, é de um enorme pragmatismo onde todos crêem que "se eu posso e é 'legal' e 'lógico', eu vou fazer". Talvez ainda me falte ainda entender a necessidade e importância de vários empreendimentos científicos ou tecnológicos. Mas talvez não, e neste caso sou obrigado a concluir que temos uma péssima noção do que é uma pergunta a ser respondida ou problema a ser resolvido, na ciência ou na tecnologia. De qualquer forma, me assusta o quão fácil hoje conseguimos justificativas para tudo o que fazemos, jogando a utilidade e sentido do trabalho em um tempo ou espaço irreal e remoto. Falta-nos um critério para isso. O leitor já reparou na quantidade de escritos de reformados, hoje, falando do valor que o calvinismo deu ao trabalho "comum e secular"? Pois bem, eu concordo com isso, porém alerto que enquanto "trabalho" for uma abstração qualquer, sempre exemplificada como agricultura ou artesanato no fim da Idade Média, vamos fazer muita injustiça com o cenário tecnológico progressista e pragmático que vivemos atualmente. Na vida real, as coisas não são assim "preto e branco". Calvino morreu em 1564; Jonathan Edwards, em 1758. Mas Henry Ford nasceu em 1863. Será que vamos deixar que o mundo fale como os cidadãos de Admirável Mundo Novo: "Santo Ford!", ao invés de "Santo Deus!"?

Quantos hoje tem se proposto a avaliar o que tem sido feito, hoje, no trabalho científico e tecnológico? É muito difícil encontrar livros que questionem essas coisas. Se olharmos para a história, veremos que mesmo frente ao ideal científico iluminista, houve muitas vozes dissidentes: Jonathan Edwards, John Donne, Jonathan Swift, Blaise Pascal, entre outros (confira o livro de Avihu Zakai, "Jonathan Edwards' Philosophy of Nature: The Re-enchantment of the World in the Age of Scientifi c Reasoning") - e repare: eles não rejeitaram o movimento como um todo, mas eram cautelosos para não ceder à idolatria e às confusões epistemológicas, que não se harmonizavam com a fé e o encanto presente no mundo criado por um Deus pessoal e presente.

Mas será que isso significaria que todos nós, cristãos, deveríamos dar um passo para trás, parar todas nossas atividades científicas e ficar apenas refletindo? Isso eu respondo com um completo "não sei". Não sei, porque por um lado, é realmente preocupante a falta de reflexão que vemos hoje, nessa área, e tanto autores cristãos como não cristãos percebem isso há muito tempo. Mas por outro lado, há também o perigo da indolência, do trancar-se no quarto e agir como Descartes, tentando partir do "penso, logo existo" para tentar chegar a alguma coisa de valor. A humanidade parece ainda não ter resolvido esse problema - vê-se a briga que existe hoje entre a filosofia e a ciência, ou mesmo entre a ciência teórica e a ciência aplicada. Mas diante disso, temos que dizer: há esperança no cristianismo, no Deus que se torna homem e une em si mesmo o infinito com o finito.

Como isso acontece? Bem, ainda há muito a ser discutido aqui. Mas por ora, seria interessante lembrar-nos de Dooyeweerd e reconhecer que o caminho sempre foi olhar, humildemente, para a extensão e complexidade presentes na vida cotidiana, na experiência pré-teórica, e na própria Lei de Deus revelada nas Escrituras. Parafraseando Jacques Ellul, não adianta querer ser eficiente na luta contra a idolatria da eficiência; e isso pode ser estendido: não adianta querer lutar contra a idolatria da informação, do trabalho, e da obra humana exigindo mais informação, mais trabalho e mais obra humana. É o que, infelizmente, eu sinto falta em vários autores. Neil Postman, por exemplo, faz em seu livro "Amusing Ourselves to Death" uma excelente análise dos pressupostos que muitas vezes não notamos na mídia e na televisão; mas sua proposta de solução, na conclusão do livro, é confusa, generalista e inconcebível. Diz ele que "temos que tomar mais consciência dessas coisas", "questionar tudo", e que "perguntar é quebrar o feitiço". Embora isso certamente seja necessário em certas situações, não, eu não creio que as coisas sejam tão simples assim. É uma solução cartesiana. Enquanto isso, a Bíblia nos ensina que a consciência do pecado não nos dá automaticamente a capacidade de não pecar. A consciência do pecado nos daria, no mínimo, a capacidade de mostrar exteriormente que não pecamos (como os fariseus), mas ela não muda o coração idólatra.

Mas isso, por outro lado, não justifica o não buscarmos sabedoria para lidar com essas questões difíceis e complexas na atividade científica e tecnológica moderna. Caso contrário, por que eu escreveria este blog? Eu não entendo a razão de pensar que só porque a vida cotidiana é mais importante que a teórica, que devemos deixar a teoria de lado. Muito pelo contrário! É exatamente aí que vamos trabalhar pela sabedoria, para realçar e tornar esta realidade cotidiana mais rica, e glorificar a Deus com ela. A questão aqui é que nossa teoria, ou mesmo nossa artificialidade, não podem ser vistas como dependências, mas como louvor (o que isso significa na prática renderia vários livros...). Precisamos reconhecer que essas coisas são dons de Deus, e não são extensivas como esperamos que ela sejam; afinal, ela nem podem ser extensivas, pois não dá para levar em conta todas as implicações de nossas atitudes, principalmente neste cenário complexo que acabei de apresentar. Enquanto buscamos a sabedoria, precisamos da consciência de que essas coisas possam ser feitas sem a fé, a dependência de Deus, e uma visão que esteja calma e satisfeita em Deus, reconhecendo que só Ele pode "tornar novas todas as coisas". A abordagem cristã é uma abordagem de fé e obediência, e não de confiança em obras, ou naquilo que vemos e/ou entendemos - ou seja, a artificialidade. Com ou sem o favor de Deus, estamos satisfeitos nele. O contrário disso seria escrever uma obra como "O Capital", dedicar a vida toda a fazer análises sociais e culturais, acreditar que conseguimos entender o que acontece, e promover ações diretas, que tantos governos tentaram e tentam fazer até hoje, e que só acabam em artificialidade e confusão. E pior: é péssimo ter que viver com culpa, quando não se sabe se aquilo que fazemos em nossos trabalhos tem contribuído para o bem ou para o mal - e é essa culpa indefinida, este medo da verdade, que move tantos, hoje, ao ativismo ou ascetismo.

Eu sinceramente não espero que uma abordagem reformada à tecnologia tenha que recorrer a isso. Precisamos de uma postura equilibrada, que reate a vida teórica à cotidiana, reconhecendo que precisamos tomar consciência de muitas coisas, e estudar, e sermos críticos, mas que apenas isso não é suficiente. Respeitar os aspectos, as "esferas", o mistério e a complexidade do mundo, enquanto se testemunha do seu Reino, é algo que só cabe a uma fé no Deus Absoluto, Pessoal, que sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder. Meu apelo neste texto, portanto, é um chamado para que os reformados na tecnologia reflitam mais, e busquem mais as coisas lá do alto. Mas que também façam tudo isso humildemente, reconhecendo que que o ideal da filosofia cristã não é "resolver o problema do homem", "aliviar os efeitos da Queda" ou "operar a redenção de Cristo", mas simplesmente testemunhar de Cristo. Isso envolve muito esforço, técnica e mesmo sofrimento e enfado; mas já não é algo que busca tesouros aqui na terra, mas no céu. O entendimento só vem de Deus - oremos para que ele nos conceda esta graça; mas caso não conceda, que não percamos a esperança, lembrando que muitas vezes os mais belos salmos foram escritos nestes momentos.